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sábado, março 09, 2013

Sobre o Dia Internacional da Mulher - Homenagem do Correio Braziliense - 8 de março de 2013.

Na ediçao de 8 de março do Correio Braziliense, uma página inteira (a 29) de homenagem as mulheres.

Dizia assim:


"Nas ciencias, nas artes, no esporte, na politica, na economia, na cidade, no mundo. Qualquer assunto fica mais interessante quando voce estah presente.

Parabens pelo papel que representa na sociedade e pelo espaço que merecidamente conquistou.

08 de março. Dia Internacional da Mulher. Uma homenagem do Correio Braziliense a todas e a cada uma de voces, mulheres."

Obs: no texto havia os acentos, no meu computador eh que estao falhando.

Imagens: 20 fotos de rostos de mulheres sorrindo e duas faces parciais - olhos e nariz.

Questoes:

1) Sobre as imagens: todas sao mulheres bonitas, rostos delgados, cabelos modelados, a maioria bem jovens, três delas mais velhas, talvez na faixa ainda dos 50.

- Cadê as velhas, bem velhas? Cadê as feias? Cadê as gordas? Cadê as despenteadas pela dura rotina da vida? Cadê as com sindrome de Down, as cegas, as com sobranchelhas por fazer? Nao merecem nossa homenagem?

- Das 22, duas sao negras, sendo uma preta e uma parda. Acreditam que coincidentemente estão nas duas unicas fotos pequenas da página? Todas as duas tem o cabelo bem curtinho. Nada de uma exuberante e bela cabeleira negra. Nossas negras nao são cerca de 50% das brasileiras? Nao mereciam metade das fotos? Nao mereciam mais espaço??

2) Sobre o texto. Tantas coisas em tao poucas palavras...  

- Primeiramente eles citam alguns campos de atuação: 'ciencia, artes, esporte, política, economia'. E por fim, dois espaços: "na cidade, no mundo". Cinco campos de trabalho eminentemente masculinos em que há pouco, muito pouco tempo, as mulheres passaram a atuar, mas ainda em extrema desvantagem quanti e qualitativa, ou seja, muito longe de serem protagonistas. As que sao, sao realmente vencedoras, batalhadoras e exceções. Mas por que nao mencionaram os 'locus' em que as mulheres sempre atuaram e marcaram seu espaço: no lar, na educação, no cuidado??? Ah, porque eles não têm importância, não eh mesmo?? Não têm status. Ah, aliás eh por isso que eh tão difícil para as mulheres se empoderarem!  

- Com relação ao espaços, mencionou-se a cidade. Ok, o mundo estah cada vez mais urbano, o Brasil eh 80% urbano, se não me engano. Mas E O CAMPO?? E as mulheres que seguram a enxada, que pelejam sob o sol, que garantem a subsistência de suas famílias, que vivem e morrem dia-a-dia por elas??? Como nao sao citadas? Soh porque nao leem o jornal? Soh porque nao leem??   

- Parabéns pelo papel que representa na sociedade. Que papel??? Papel submisso, papel subalterno, papel coadjuvante???  

- Parabéns 'pelo espaço que merecidamente conquistou'. Sim, estao certos, espaço conquistado. Porém, um espaço que, na teoria, deveria ter sido seu, desde o inicio um espaço compartido. Como ser humano, deveria ter tido o seu espaço reservado, preservado. No entanto, não foi assim. À mulher, por muito tempo, foi negado o seu. À mulher, em muitos locais, ainda eh negado o seu. A mulher ainda tem muito o que conquistar em termos de espaço. Ok, muito hah o que celebrar. Mas é preciso lembrar e ressaltar que muito mais ainda há por ser feito. Merecimento???? Sim, as mulheres MERECEM esse espaço. Foi delas tirado.  

- Por fim, o texto é dirigido a 'voces, mulheres'. Ou seja, fica claro que o Correio eh masculino. Nao se trata apenas de uma cortesia, uma gentileza. Nao eh uma homenagem dos homens do Correio para todas as mulheres, incluindo AS do Correio. Eh uma homenagem "do Correio". E as tantas mulheres que participam do e fazem o Correio Braziliense?? Nao poderiam gentilmente ter sido incluídas tambem como autoras - ou receptoras - da homenagem? Bastava terem escrito: "uma homenagem do CB a todas e a cada uma das mulheres." Assim elas estariam incluidas nos dois lados da mensagem. Mas no detalhe ressaltou-se a verdade. A mulher ainda é o 'segundo sexo'.

- Portanto, Correio, muito bonitinha a homenagem. Longe de ser uma verdadeira homenagem.

sexta-feira, abril 20, 2012

Novos tempos requerem novos homens

Estamos cansados de ouvir e de saber que a vida em sociedade vem se transformando rapidamente nas últimas décadas. Intensas mudanças no campo da tecnologia, da ciência e da informação. Do tranporte e do trânsito não quero nem falar. Mudanças também no mundo do trabalho - novas profissões, novas relações e a inserção da mulher em um espaço antes exclusivamente masculino.

Hoje já temos uma situação em que cerca de 50% da força de trabalho é feminina. Não quero agora mencionar o fato de que apesar disso elas ocupam muitíssimo menos cargos de direção, que recebem menos que homens e que estão muito mais relacionadas às profissões do cuidado (educação, saúde e assistência social) e muito menos às das ciências exatas (engenharias, informação, finanças).

Quero falar simplesmente que esses novos tempos requerem novas relações. Pois essas mudaram muito pouco ao longo dos últimos anos. Simplesmente não acompanharam o ritmo das inovações tecnológicas. Ainda vivemos numa sociedade marcada pelo sexismo, pela divisão de papéis sexuais, pela ideia de que é da mulher o ônus do trabalho doméstico, da administração da casa e da família.

Ora, já não nos basta a sensação de vitória por termos obtido o direito ao estudo, ao voto, à cidadania. Queremos o direito, ou melhor, queremos a prática cotidiana de compartilhar lado a lado os espaços de poder e de trabalho disponíveis no mundo e no lar. Se a nova mulher sai de casa para o trabalho é preciso um novo homem que adentre e divida o cuidado com a casa e a família.

Tenho a felicidade (e o orgulho porque não dizer) de partilhar a minha vida com um novo homem. Não, não é um novo marido, faz 13 anos que estamos casados, nem estou falando de idade, ele já passou dos 40! Um novo tipo de homem, desse novo tempo. Não é um homem que ajuda na casa, que ajuda a cuidar dos filhos. Ajuda é algo que se faz de favor, mesmo entendendo que a responsabilidade é do outro. Ajuda é algo provisório, eventual, que se faz quando se pode, quando se tem disponibilidade. Falo de um homem que compartilha. Compartilhar significa fazer quando necessário, quando a situação requer, ainda que se esteja cansado, que não se esteja a fim, porque entende que é assim que deve funcionar.

Esse novo homem não é menos macho, nem menos masculino. Sabe o que significa ser homem, sabe o significado de ser marido e de ser pai. Sabe que masculinidade não está relacionada à opressão do feminino, à valorização da força física, a expressão de fúrias ou a agressão. Sabe que sua masculinidade se apresenta no contato amoroso e equilibrado com o feminino, no cuidado terno, delicado e firme com os filhos, na possibilidade de demonstrar suas forças e fraquezas, de amar e ser amado, de apoiar e ser apoiado, de confortar e ser confortado. Sabe que pode ofertar seu ombro e querer colo. Que pode se emocionar, rir e chorar. Compreende que não existe emoção feminina ou masculina, mas que simplesmente existe o humano.

Sim, novos tempos requerem novos homens. Que as mulheres ajudem a pari-los, criá-los e educá-los.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Brinquedo de menino, brinquedo de menina

Todas as vezes que preciso ir a uma loja de brinquedos (coisa não rara quando se tem filhos, sobrinhos, amiguinhos dos filhos aniversariando quase toda semana) me sinto irritada.

Quando você entra e diz que precisa de um presente, a primeira coisa que o/a vendedor/a te pergunta é se é para menino ou menina e, depois, que idade a criança tem. Ora, no atual mundo em que vivemos em que mulheres e homens ocupam os mais diversos espaços sociais e laborais e precisam cada vez mais aprender a dividir todos os espaços e funções domésticas, que sentido faz dividir as brincadeiras por sexo? E pior: por sexo e cor!! Então você vai na seção feminina e encontrará todos os tipos de bonecas cor de rosa e miniaturas de utensílios domésticos, todos cor de rosa. Sim, porque os aparatos domésticos - fogãozinho, vassourinha, maquininha de lavar roupas, pratos, secador de louças, conjunto de pratos, xícaras e colherzinhas, TUDO impreterivelmente cor de rosa e situado no lado feminino. E os nossos futuros chefs e maridos e donos de sua própria casa não precisam treinar a manipular brinquedinhos dessa natureza? Não terão mais tato com os filhos se puderem brincar de boneca e boneco? E nossas meninas não sairão de seu papel de princesa à espera do príncipe encantado e entenderão mais cedo e de uma forma melhor se tiverem a oportunidade de enfrentar monstros e dragões desde a tenra idade?

Por que então não fazem todos os brinquedos de todas as cores para que meninos e meninas escolham independentemente o que estão a fim de fazer? Por que as próprias empresas não tomam a dianteira e têm uma atitude menos reacionária e produzam brinquedos que representem melhor o mundo que vivemos e que está à espera de nossas crianças. Que simplesmente não reproduzam modelos sexistas que contribuam para visões de mundo distorcidas, para a ideia de que os homens são fortes, ativos, aventureiros e responsáveis e as mulheres são frágeis, passivas, submissas e incompetentes para se defender do e no mundo.

Por isso que sempre me recusei a comprar esses brinquedos cor de rosa (embora simplesmente AME rosa!!) e incentivei a que minha filha tivesse acesso a todos os tipos de brincadeiras. E assim ela pôde ter tratores, caminhões, aviões, bichos do imaginext, arminhas, espadas, todos os tipos de dinossauros e também bonecas, geladeira, carrinho de feira e tudo o mais. Porque é brincando que se aprende e se apreende o mundo e eu faço questão de mostrar que o mundo é vasto e que ela merece todas as oportunidades que o mundo tem a oferecer.