quinta-feira, setembro 10, 2009

Pontos de vista

Uma das coisas maravilhosas de se ter filhos ou simplesmente de se conviver com crianças é ter a oportunidade de enxergar o mundo sob sua perspectiva. E, assim, aprender muito. Gente, é impressionante como a gente vai ficando menos sábio à medida que cresce!!

Lembro quando minha filha tinha exatos dois anos e caiu de nossa cama numa noite. A bichinha chorava, chorava, então resolvemos levar para o hospital para ver se tinha alguma coisa que não enxergávamos. Não deu outra, havia fraturado a clavícula. O urgentista achou que deveríamos engessar e lá volta ela do hospital com aquela camisa de força ortopédica. Apenas um bracinho livre! Quase morri de dó!! Na manhã seguinte, lá estava eu imersa em piedade por aquele pedacinho de gente semi-imobilizado. Quando olho para ela, lá está fazendo todas as suas coisas com a maior naturalidade. O mesmo sorriso no rosto, o bracinho preso, correndo de um lado para o outro, brincando totalmente adaptada à nova realidade. Percebi que, até então, ela não tinha aprendido a se lamentar. Que podia, simplesmente, adaptar-se, adequar-se e ser feliz, sem se martirizar com as possíveis perdas ou pequenas misérias de sua vida. Como ela me ensinou!

Na última mensagem contei do falecimento da filha de meu amigo. No dia em que recebi a notícia e que todos fomos tomados por um imenso espanto, cheguei em casa e fui lhe dar a notícia. Disse a ela que eu estava muito triste porque algo muito sério havia acontecido. Ela mudou sua expressão e, com um tom de voz sóbrio e concentrado, perguntou o que tinha acontecido. Contei-lhe. Ela perguntou qual era a idade da menina. Falei que não sabia ao certo, que era algo em torno de 12 ou 13 anos. E ela serenamente me disse: que bom que ela aproveitou toda a infância, né, mamãe?

Fiquei muda, dei-lhe um sorriso de concordância e um abraço. E percebi como ainda me faltava tanto a aprender...


Fonte: yonelins.tripod.com/galeria/

quarta-feira, setembro 09, 2009

Uma pausa na vida

Dias atrás um amigo muito querido perdeu sua filha caçula de 13 anos. Era uma filha especial, em todos os sentidos. Sabíamos que era anjo e que seu tempo por essas bandas provavelmente seria breve. Embora não imaginássemos que seus dias estavam no fim 5 dias antes, quando voltava de uma consulta de rotina e sua saúde estava em ótimas condições. Quem disse que a morte necessita mandar recados?

Queria abraçar o meu amigo e dizer alguma coisa para ele. Mas dizer o quê? E para quê? Nessa hora, de repente, todas as palavras tornam-se supérfluas, quase obscenas. Não há o que dizer. Só há o que abraçar, o que sentir, o que chorar.

Houve o velório e o culto. Sua família é extremamente religiosa e espiritualizada. Não aquele tipo de religioso que participa de todas as atividades da Igreja e que passa as horas falando mal do vizinho, mas aquele tipo de religioso que verdadeiramente vivencia e pratica uma religião. Que age, pensa, sente e se relaciona com o mundo e com os outros segundo a fé, os princípios e valores que possui e que profere. Aquele tipo de gente que respeitamos, admiramos e amamos incondicionalmente do fundo do coração.

Na igreja, respirávamos emoção e transcendência. Fechava os olhos, abria os olhos, olhava para os lados e parecia que tinha sido transportada para uma outra dimensão. Onde não havia nem tempo, nem espaço. Onde ‘coisas’ não tinham nenhum valor ou significado. Onde apenas o sentimento, o mistério, a emoção, a energia, o amor, o divino, o eterno importavam. Todo o resto era tão supérfluo como todas as palavras.

Minha amiga, que no mês anterior tinha perdido duas irmãs em um acidente de carro, sentada bem ao meu lado, me dava suas mãos enquanto eu recostava minha cabeça em seu ombro. Juntas, sentíamos. Juntas, respirávamos. Juntas, chorávamos. Chorávamos, invadidas por toda a tristeza plena, bela e profunda que há na vida e na morte de uma criança pura, linda, amada, cuidada, querida e inocente. Mas acho que chorávamos também por todas as dores da vida, por todas as perdas que tivemos e pelas que ainda viremos a ter.

Saí de lá torporizada. Não consegui ir ao enterro. Queria abraçar minha filha antes que ela fosse à escola. Queria senti-la perto de mim, dizer o tanto que a amava. Queria fazer isso consciente de que cada momento deve ser vivido intensamente, que não podemos procrastinar como se tivéssemos convicção de que o segundo seguinte nos pertencesse. O futuro é simplesmente uma hipótese, como disse Lobato. Nosso planejamento de vida, nossas escolhas devem sempre levar isso em conta. Não podemos nos esquecer que a vida é agora.


Fonte: http://www.biologo.com.br/macrofotografia/fotos/images/abelha_jpg.jpg

segunda-feira, setembro 07, 2009

Divagações da Mulher Selvagem

Uma amiga me disse que essa pausa para balanço estava muito grande. Concordei com ela. Resolvi fazer um esforço, chacoalhar uma cabeça ainda meio tonta para ver se, espremendo, algo interessante saía dali. Não consegui. Então vou falando do que vier na telha mesmo.

Parte I

Estou num hotel aqui em Brasília, de frente para o lago e pro céu equivocadamente nublado nesse 7 de setembro. Ele deveria estar bem azul com um sol insuportavelmente forte. Mas o clima parece estar doido mesmo. No bar próximo à piscina toca uma música boa ao vivo e, para completar escuto som de pássaros e de gente pulando na piscina. Tudo isso dá uma sensação tão grande de bem estar!!

Anteontem estávamos nesse mesmo hotel, à beira da mesma piscina que descrevi e refletíamos sobre como era gostoso juntar um grupo de pessoas que se gostavam, seus filhos e curtir um fim-de-semana diferente, num lugar aprazível para celebrar a vida de alguém querido. Pensamos que muitas vezes não precisa muito para sentirmos alegria e contentamento. Conversávamos sobre uma quantia ideal de dinheiro que uma família deveria possuir para ser feliz. Nossa teoria era que dinheiro demais e dinheiro de menos estragam a vida e atrapalham as pessoas. Que o indicado seria ter dinheiro suficiente para usufruir das coisas boas que a civilização criou – viagens, shows, exposições, vestuário, uma casa própria bem transada, livros, revistas, cursos de idiomas, internet, creme anti-sinais, múltiplos canais de televisão, bons meios de locomoção (a lista é variável conforme o gosto de cada um...) – mas que não deveria ser tanto, a ponto de a pessoa, achando que pode tudo, perdesse seu referencial de humano, mortal, num mundo ainda desigual de gente que esbanja e gente que sofre muito.

Lembramos da Neverland de Michael Jackson. Em vez de eu me afundar num processo lento e doloroso de psicoterapia e superar os traumas de minha infância sofrida e usurpada e reconstruir uma história de vida – plena e feliz, escolho o caminho mais fácil e que minha conta no banco permite: crio um mundo de ilusão e acredito que ali sou feliz porque posso resgatar uma infância que, obviamente, não se permite ser resgatada. Por fim, morro jovem, doente, sozinho e infeliz.

Uma mencionou a Ivete Sangalo que recentemente teria comprado um ecocardiógrafo para ter em casa e diariamente, sei lá, poder acompanhar o andamento da gravidez e ‘ver’ seu filho. Pensamos até que ponto isso era saudável ou neurótico. O quanto seria uma nova possibilidade trazida pela tecnologia e que aumentaria a segurança da mãe e do bebê, ou um exagero medonho que nos afastaria ainda mais da natureza, do contato íntimo entre mãe e filho, em que os instrumentos são puramente os sentidos, a intuição e o afeto.




Parte II


É noite e estamos de volta à nossa casa. Maridão comenta que, no final das contas, não há lugar melhor. Pondero que isso depende muito da casa. Algumas são uma versão do inferno.

Continuando a conversa anterior e falando de intuição, me lembro do livro que me foi recomendado há tempos, cuja primeira leitura tentei fazer em 2006, mas não avançou e que, este ano, em meu processo intensivo de autoconhecimento, decidi resgatar: ‘Mulheres que correm com lobos – mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem’, da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estes.

Ao estudar os lobos, ela percebeu diversas semelhanças entre a loba e a mulher, especialmente no que se refere à dedicação aos filhos, ao companheiro e ao grupo. Observou também que, ao longo do desenvolvimento da civilização esses instintos mas naturais – a que ela denomina de Mulher Selvagem – foram sendo domesticados, sufocando o potencial criativo da mente feminina.

Segundo Clarissa, sem a compreensão dessa natureza da Mulher Selvagem, as mulheres perdem a segurança do apoio de sua alma. Esquecem-se do motivo pelo qual estão aqui; agarram-se às coisas quando seria melhor afastarem-se dela. Alguns sintomas desse distanciamento da Mulher Selvagem seriam ‘sensações de extraordinária aridez, fadiga, fragilidade, depressão, confusão, de estar amordaçada, calada à força, desestimulada. Sentir-se assustada, deficiente ou fraca, sem inspiração, sem ânimo, sem expressão, sem significado, envergonhada, com uma fúria crônica, instável, amarrada, sem criatividade, reprimida, transtornada.

Sentir-se impotente, insegura, hesitante, bloqueada, incapaz de realizações, entregando a própria criatividade para os outros, escolhendo parceiros, empregos ou amizades que lhe esgotam a energia, sofrendo por viver em desacordo com os próprios ciclos, superprotetora de si mesma, inerte, inconstante, vacilante, incapaz de regular a própria marcha ou de fixar limites. Não conseguir insistir no seu próprio andamento, preocupar-se em demasia com a opinião alheia, afastar-se do seu Deus ou dos seus deuses, isolar-se da sua própria revitalização, deixar-se envolver exageradamente na domesticidade, no intelectualismo, no trabalho ou na inércia, porque é esse o lugar mais seguro para quem perdeu os próprios instintos.

Recear aventurar-se ou revelar-se, temer procurar um mentor, mãe, pai, temer exibir a própria obra antes que esteja perfeita, temer iniciar uma viagem, recear gostar de alguém ou dos outros, ter medo de não conseguir parar, de se esgotar, de se exaurir, curvar-se diante da autoridade, perder a energia diante de projetos criativos, encolher-se, humilhar-se, ter angústia, entorpecimento, ansiedade.

Ter medo de revidar quando não resta outra coisa a fazer, medo de experimentar o novo, medo de enfrentar, de exprimir sua opinião, de criticar qualquer coisa, de sentir náuseas, aflição, acidez, de sentir-se partida ao meio, estrangulada, conciliadora e gentil com extrema facilidade, de ter sentimentos de vingança.
(...) Tendo a Mulher Selvagem como aliada, como líder, modelos, maestra, passamos a ver, não com dois olhos, mas com a intuição, que dispõe de muitos olhos. Quando afirmamos a intuição, somos, portanto, como a noite estrelada: fitamos o mundo com milhares de olhos.

(...) Aproximar-se da natureza instintiva não significa desestruturar-se, mudar tudo da esquerda para a direita, do preto para o branco, passar o oeste para o leste, agir como louca ou descontrolada. Não significa perder as socializações básicas ou tornar-se menos humana. Significa exatamente o oposto. A natureza selvagem possui uma vasta integridade.

(...) A mulher selvagem é a origem do feminino. (...) É o momento imediatamente anterior àquele em que somos tomadas pela inspiração. (...) É ela quem se enfurece diante da injustiça. É a criadora dos ciclos. É à procura dela que saímos de casa. É à procura dela que voltamos para casa. Ela é a raiz estrumada de tods as mulheres. Ela é tudo que nos mantém vivas quando achamos que chegamos ao fim. Ela é a geradora de acordos e idéias pequenas e incipientes. Ela é a mente que nos concebe; nós somos os seus pensamentos.

(...) Para encontrar a Mulher Selvagem, é necessário que as mulheres se voltem para suas vidas instintivas, sua sabedoria mais profunda’.




Como Clarrisa é uma contadora e estudiosa de histórias, no livro ela apresenta uma série de mitos, contos de fadas, lendas do folclores e outras histórias, por meio das quais, a mulher pode se ligar novamente aos atributos saudáveis e instintivos do arquétipo da mulher selvagem. Segundo ela, ‘as histórias são bálsamos medicinais. (...) A cura para qualquer dano ou para resgatar algum impulso psíquico perdido está nas histórias. (...) Nas histórias estão incrustadas instruções que nos orientam a respeito das complexidades da vida. As histórias nos permitem entender a necessidade de reerguer um arquétipo submerso e os meios para realizar essa tarefa.

Ressalta que muitas vezes as histórias são ‘purificadas’. Há suspeitas de que os famosos irmãos Grimm, por exemplo, tenham coberto antigos símbolos pagãos com outros cristãos, de tal modo que uma velha curandeira num conto passava a ser uma bruxa perversa; um espírito transformava-se num anjo; um véu ou coifa iniciática tornava-se um lenço; ou uma criança chamada Bela (nome costumeiro para a criança nascida durante os festejos de solstícios) era rebatizada de Schmerzenreich, Dolorosa. Os elementos sexuais eram omitidos. Animais e criaturas prestimosas eram transformados em demônios e espíritos do mal. E assim, perderam-se muitos dos contos femininos que continham instruções sobre sexo, amor, dinheiro, casamento, parto, morte e transformação. ‘Da maioria das coletâneas de contos de fadas e mitos hoje existentes foi expurgado tudo o que fosse escatológico, sexual, perverso, pré-cristão, feminino, iniciático, ou que se relacionasse às deusas; que representasse a cura para vários males psicológicos e que desse orientação para alcançar êxtases espirituais’.

Seu trabalho ao longo de anos tem sido reconstruir histórias. Busca seus esqueletos ou partes dele, como uma intensa escavação paleontológica, compara versões e utiliza elementos arqueológicos das próprias culturas ancestrais, como imagens, máscaras, cerâmicas, para tentar recriar o original. A cada capítulo traz uma história e uma interpretação dela, fazendo o vínculo com a Mulher Selvagem.

É uma leitura muito interessante para mulheres que desejam encontrar-se por inteiro, buscar suas origens, compreende o poder e a utilidade da intuição e dos instintos e que, claro, estejam no momento para isso, pois definitivamente não é uma atividade de puro entretenimento e lazer.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Pausa para balanço

Estive fora por um tempo e é capaz que ainda fique mais um pouco. O motivo? Pausa para balanço. Viagem ao centro de mim. Como é que se chame isso...

Pois é, Flavinha, percebi que precisava dar um tempo em várias coisas para me encontrar. Não sei se isso é bom ou ruim. Bem, é bom, mas não é um encontro trivial. Tantas coisas que não estava (estou?) com ânimo de ver! Mas como postergar mais o olhar e seguir andando cheia de pendências e penduricalhos mal resolvidos e achar que não vou tropeçar? Como escolher o caminho se não defini o destino? Como escrever sem estar inteira comigo? Somente ficando no campo das superficialides e não era bem esse meu propósito inicial. Queria falar do que me toca, do que me incomoda, do que desejo do fundo do meu coraçao. Como falar do que não sei? Sempre quis viver tudo de forma intensa e verdadeira. Conhecer o céu e o fundo do poço. Mas o fato é que no momento desconheço tantas coisas! Inclusive meus principais desejos. Preciso achar o que me move, lo que me da ganas de vivir... Já comecei e tem sido bom estabelecer definições importantes!
Tenho escrito muito para mim. São conversas bem reservadas, na tentativa de organizar o pensamento, separar o joio do trigo, o que é razão e o que é insanidade, invenção ou nóia. Servem para ver como evoluem (e como vão e voltam) meus sentimentos e pensamentos. Também tenho lido bastante e visto alguns filmes muito legais. (O melhor deles foi "Há tanto tempo que te amo", um filme francês que ainda está em cartaz por aqui e mostra um drama familiar e interior maravilhoso, de forma simples, leve, verdadeira e profunda, sem nenhum exagero. Vale muito a pena ver, para quem gosta do gênero). A literatura e o cinema nos permitem entrar em contato com questões nossas por meio das histórias e dilemas de outros, o que facilita nossos processos de autoconhecimento. Nos mostra também como todos temos sentimentos tão parecidos e diferentes formas de agir e de lidar com eles.
É possível que, por enquanto, vez ou outra passe por aqui. Até como exercício, mesmo quando estiver difícil...

terça-feira, junho 16, 2009

Pequenas coisas que fazem meu dia melhor

- Não ter hora para acordar
- Uma boa espreguiçada pela manhã
- Raios de sol pela janela do meu quarto
- Céu azul e sol quente
- Abraço e beijo de bom dia
- Café feito na hora com pão quente e manteiga
- Louça lavada e mesa posta
- Banho quente e toalha felpuda
- Música boa no fone de ouvido
- Cantar enquanto dirijo
- O sorriso da minha filha
- O sorriso de qualquer criança
- Mensagem de amor no celular
- Sexo de madrugada
- Sexo de manhã
- Sexo bom sem hora marcada
- Beijo na boca
- Dormir depois do almoço
- Roupa de cama recém colocada
- Água gelada antes de dormir
- Tirar os sapatos e vestir minhas pantufas
- Um bom livro deitada na cama
- Revistinha da Turma da Mônica
- Ver o resultado de um trabalho legal
- Participar da felicidade de alguém
- Leite condensado com nescau
- Leite condensado com morango
- Leite condensado com qualquer coisa
- Malhar até as bochechas suarem
- Sentir-me saudável
- Receber uma carta (ou e-mail especial)
- Escrever uma carta
- Pensar na vida
- Lembrar do mar
- Sentir-me querida
- Querer bem
- Passar creme pelo corpo
- Encontrar um amigo - ou amiga
- Ler um poema
- Sentir a brisa da manhã
- Admirar a paisagem a minha volta
- Dormir encolhidinha, envolta em cobertas, abraçada ao meu amor...

A lista não termina aqui, é muito longa. Fico feliz em saber que faço tudo isso com bastante frequência...

domingo, junho 14, 2009

Cirurgia estética - para quê?

Dia desses conversava com uma amiga que, aproveitando a oportunidade da troca necessária do silicone nos seios, resolveu fazer lipoescultura em abdome e culote e um implante de gordura em local do glúteo que considerava ter um 'desnível'. De quebra, aplicaria botox na testa, que o cirurgião faria de graça.

Já ouviram falar naquele dito 'de graça até injeção na testa'? Pois é, anda mais atual do que nunca! Eu continuo partidária do 'Injeção?... Nem de graça!' Não tomo benzetacil, vacina de gripe, nada que a relação dor-benefício não compense ou que possa ser resolvido por outra opção que não envolva furos e invasões.

A coitada estava às voltas com massagens doloridas para dissolver os calombos no abdome, diminuir a cicatriz nas axilas e em processo de auto-flagelação por ter tido todas essas estúpias idéias - ela que não era modelo, não dependia do corpo para ganhar seu sustento e já era magra e linda.

Pergunta: por que essa obsessão pelas cirurgias e procedimentos estéticos???

São caros, invasivos, dolorosos e, algumas vezes, arricados!! Até que ponto essa busca pela perfeição, pela beleza utópica, pela juventude eterna, pela satisfação ilusória vale a pena? Será que o problema está naquela gordurinha a mais, naquele amontoado de celulites - comuns à natureza feminina - ou nas escolhas que fazemos, nos valores que praticamos, na maneira que decidimos levar nossas vidas?

Queremos preencher as rugas ou os vazios interiores que nos preenchem?

Talvez passemos por tantas intervenções externas porque são mais fáceis e rápidas do que as viagens e reformas interiores.

Entretanto, o resultado a longo prazo é infinitamente inferior...

quinta-feira, junho 11, 2009

Cavalhadas em Pirenópolis

Fim-de-semana desses, fizemos uma pausa na rotina urbana, para dar um pulinho em Pirenópolis - Piri, para os íntimos - e respirar outros ares (bem mais puros), caminhar sobre paralelepípedos, apreciar culinária regional, comprar artesanias locais, desestressar, essas coisas... Também pretendia me dourar ao sol, caminhar por alguma trilha fácil (em nossa pousada havia uma!) e, à tarde, iríamos assistir às Cavalhadas, parte dos festejos do Divino Espírito Santo.

A festa, com duração de doze dias, tem seu ápice no domingo do Divino, comemorado cinquenta dias após a ressureição. É uma mescla de festejos religiosos e profanos e constituída de novenas, folias, procissão, missa, desfiles de mascarados, salvas de tiros (roqueiras), cavalhadas, pastorinhas e apresentação de grupos folclóricos.

Fazia tempos que queríamos fazer isso e finalmente deu certo. Quer dizer, deu certo a viagem, a programação não saiu exatamente como planejáramos.

A pousada que o maridão escolheu pela Internet (Cavaleiro dos Pirineus) é uma graça, muito aconchegante e integrada à natureza local. Para chegar a ela é preciso andar cerca de 2 km de terra por ladeiras tortuosas onde vacas pastam em suas beiradas. À noite, quando chegamos, parecia ainda mais assustadora! Detalhe: a estrada horrorosa é tombada pelo patrimônio histórico - que decisão estapafúrdia! Um cimento cairía muitíssimo bem por ali!

A idéia dele era ficarmos na melhor suíte - a do Imperador - para marcar bem nosso fim-de-semana especial (recuso-me a abrir mão do hífen até 2012). Infelizmente, não estava disponível, nem as de categoria imediatamente superior. Então pegamos, a "luxo" mesmo. Ok, luxo já pareceu bem legal. O ambiente era amplo e agradável, embora nada tinha de luxuoso (a começar pela cama de casal tamanho normal, que deixava os pés do maridalto de fora). Mas o pior de tudo era o futum da madeira do quarto. Não sei vinha dos móveis ou do telhado, o fato é que, ao abrir a porta, o 'odor' entranhava as narinas e tonteava o espírito. Felizmente, nosso corpo é altamente adaptável e inteligente, então com o passar do tempo, não sentíamos mais o cheiro, quer dizer, o mau cheiro! Contando após para uma amiga, ela confirmou o que o recepcionista nos havia dito - que as suítes master e imperador não tinham esse 'problema'! Deviam avisar isso no site: contra-indicada para narizes sensíveis!

A noite estava totalmente aberta, podíamos contemplar todo o horizonte de estrelas. Permitiu que a salva de fogos de artifício fosse ainda mais bela. Assistimos a artistas circenses na rua, jantamos num restaurantezinho acolhedor, compramos pratas locais e voltamos para casa, ansiosos para o dia seguinte.

Contra quaisquer expectativas e previsões, o domingo amanheceu incrivelmente nublado e chuvoso. Não sei de onde vieram aquelas nuvens e como conseguiram povoar tão densa e rapidamente todo o céu daquela maneira. Na véspera, não existia nem lembrança, algumas horas depois, dominavam todo o espaço. Vá entender.... Com isso, os planos de voltar com uma pele menos desbotada foram por água abaixo (literalmete), bem como a idéia da caminhada ecológica. A saída foi ficar no quarto fedorento até dar a hora do programa principal.

A Filhotinha estava extremamente desapontada, pois quando falamos em Cavalhadas, supôs equivocadamente que era ela quem iria cavalgar. Tentando contornar seu mau humor, chegamos ao centro da cidade(tendo sobrevivido após mais uma desventura pela estrada histórica) e pudemos admirar a magia de uma festa tipicamente popular. Cavaleiros mascarados com fantasias monstruosas, adultos e crianças com seus trajes prontos ou inventados desfilavam alegremente pelas ruas. Alguns aproveitavam para pedir dinheiro pelas janelas dos carros ou falar impropérios, protegidos pelo anonimato das máscaras, o que perturbava um pouco mas não chegava a estragar o encanto e a graça.

Nesse momento, o frio já se dissipara e as nuvens foram passear em algum rincão distante do céu. Um calor infernal começava a se instalar. Procurávamos o 'cavalhódromo'. Não sabia que era uma arena construída, com arquibancada, camarotes improvisados e duas torres simbolizando os cristãos e os mouros. Após muito pelejar, conseguimos um espaço nas arquibancadas, próximo à torre moura, representada pelos cavaleiros de capa vermelha. A filhotinha animadíssima tentava a todo custo proteger-se do calor goiano.



Para quem não é inteirado nesses assuntos, as cavalhadas são uma representação da batalha travada entre o imperador do Ocidente, Carlos Magno, e os mouros que invadiram a Península Ibérica, a fim de difundir a religião maometana entre os ibéricos cristãos. Uma grande encenação em que as vozes dos cavaleiros são (mal) narradas pelo sistema de som do 'estádio'.

No início da apresentação, eles liberam a arena para os mascarados e cavaleiros do povo, inclusive para os marmanjos que desfilam de fralda e chupetão pendurado no pescoço.



Na arquibancada, os mascarados passeiam entre os espectadores esprimidos e adoram deixar-se fotografar.



Iniciada a encenação, os cavaleiros de cada lado desfilam e, enquanto duram as negociações entre reis e embaixadores (e como duram!), os soldados aguardam enfileirados.




A bem da verdade, não aguentamos ficar até o final do espetáculo. Embora houvesse famílias inteiras ali, idosos e crianças pequenas, de colo, de fraldas, suadas, sob aquele sol de rachar, tenho que confessar que estou cada vez menos afeita a programações em que o nível de conforto das instalações estejam abaixo de 4, especialmente se o sol das 14h30 estiver tinindo sobre as cabeças da multidão...

Para se ter melhor idéia, abaixo vão algumas imagens dos arredores...

Vista dos camarotes - de dentro do 'cavalhódromo', enquanto um dos artistas se hidratava sob o olhar atento da criançada que, animada, atirava serpentinas para aflição do cavaleiro. Reparem os cartazes - propaganda de tudo, inclusive política..



Entrada do cavalhódromo. Vendia-se de tudo um pouco por ali. O churrasquinho na esquina esquerda inferior era apenas um dos itens. Havia algodão doce colorido, balão com hélio, picolé água-suja e, felizmente, água e coca-cola!



Saída do cavalhódromo. Ainda bem que ninguém caiu no desnível do solo, nem escorregou na areia vermelha molhada! Graças à proteção do Espírito Santo porque a infra-estrutura estava longe de oferecer segurança!



Piri, lá vamos nós e esperamos voltar em breve, quando a cidade estiver bem mais tranquila...