quarta-feira, setembro 09, 2009

Uma pausa na vida

Dias atrás um amigo muito querido perdeu sua filha caçula de 13 anos. Era uma filha especial, em todos os sentidos. Sabíamos que era anjo e que seu tempo por essas bandas provavelmente seria breve. Embora não imaginássemos que seus dias estavam no fim 5 dias antes, quando voltava de uma consulta de rotina e sua saúde estava em ótimas condições. Quem disse que a morte necessita mandar recados?

Queria abraçar o meu amigo e dizer alguma coisa para ele. Mas dizer o quê? E para quê? Nessa hora, de repente, todas as palavras tornam-se supérfluas, quase obscenas. Não há o que dizer. Só há o que abraçar, o que sentir, o que chorar.

Houve o velório e o culto. Sua família é extremamente religiosa e espiritualizada. Não aquele tipo de religioso que participa de todas as atividades da Igreja e que passa as horas falando mal do vizinho, mas aquele tipo de religioso que verdadeiramente vivencia e pratica uma religião. Que age, pensa, sente e se relaciona com o mundo e com os outros segundo a fé, os princípios e valores que possui e que profere. Aquele tipo de gente que respeitamos, admiramos e amamos incondicionalmente do fundo do coração.

Na igreja, respirávamos emoção e transcendência. Fechava os olhos, abria os olhos, olhava para os lados e parecia que tinha sido transportada para uma outra dimensão. Onde não havia nem tempo, nem espaço. Onde ‘coisas’ não tinham nenhum valor ou significado. Onde apenas o sentimento, o mistério, a emoção, a energia, o amor, o divino, o eterno importavam. Todo o resto era tão supérfluo como todas as palavras.

Minha amiga, que no mês anterior tinha perdido duas irmãs em um acidente de carro, sentada bem ao meu lado, me dava suas mãos enquanto eu recostava minha cabeça em seu ombro. Juntas, sentíamos. Juntas, respirávamos. Juntas, chorávamos. Chorávamos, invadidas por toda a tristeza plena, bela e profunda que há na vida e na morte de uma criança pura, linda, amada, cuidada, querida e inocente. Mas acho que chorávamos também por todas as dores da vida, por todas as perdas que tivemos e pelas que ainda viremos a ter.

Saí de lá torporizada. Não consegui ir ao enterro. Queria abraçar minha filha antes que ela fosse à escola. Queria senti-la perto de mim, dizer o tanto que a amava. Queria fazer isso consciente de que cada momento deve ser vivido intensamente, que não podemos procrastinar como se tivéssemos convicção de que o segundo seguinte nos pertencesse. O futuro é simplesmente uma hipótese, como disse Lobato. Nosso planejamento de vida, nossas escolhas devem sempre levar isso em conta. Não podemos nos esquecer que a vida é agora.


Fonte: http://www.biologo.com.br/macrofotografia/fotos/images/abelha_jpg.jpg

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