sábado, dezembro 29, 2007

Viajando em família

Após muita expectativa, contagem regressiva, chega o grande dia em que eu, meu marido e minhas irmãs, com as respectivas crias, viajaríamos para a casa de nossos pais em Caldas Novas para comemorarmos juntos o Natal, juntamente com o irmão, a cunhada e a filhotinha, que moram em Rio Verde-GO.

O combinado: sairmos às 9h de sábado. Almoçarmos em Caldas Novas. Aproveitarmos o resto do dia.

O ocorrido: é uma longa história. Pegue uma almofada, um copo d'água, uns biscoitos, se quiser continuar a leitura.
Obs.: Tem final feliz e muitas fotos, se servir de estímulo!

Se você ainda está aqui, então vamos lá.

7h. Acordei, desliguei o despertador sem abrir os olhos e continuei a dormir.

Acordei de novo às 8h23 com o chamado telefônico da primeira irmã, interessada em saber como eu estava, porque ela estava estava inerte em sua cama, enquanto a outra já estava histérica tentando arrancá-la quase à força de seu sono encantado. Avisei-a que já tinha alterado os planos. Ela gostou e disse que avisaria à nervosa que poderia seguir viagem sozinha com o filhote, se quisesse.

Levantei às 9. Estimei que estáríamos prontos para sair às 11h. Tudo bem, em vez de almoçar lá, o faríamos na estrada. Seria divertido também.

Às 10h liguei para elas, para avisar em que ponto estava. A ansiosa voltara a dormir e a outra estava levantando.

Às 11h me ligam novamente avisando que o pneu do carro estava furado. E o estepe? O que está furado é o estepe. O outro é o que estava antes e está careca e furado. Como que vocês deixam isso, por que não consertaram logo, blá, blá, blá...
E agora? Como resolver? Tirar o pneu e levá-lo ao borracheiro?... tem a moto, mas tem que ir de duas, o que fazer com as duas crianças?... você pode vir aqui? Até posso, mas ainda vai demorar e acabamos de lembrar do peixe. Teremos que levá-lo para a santa amiga que tomará conta dele por esses dias. Depois ainda temos que passar na farmácia. Vamos demorar a chegar. Tudo bem, vou ver o que faço.

Um santo vizinho aparece na hora. Ajuda a retirar o pneu, a levar no borracheiro, a arrumar e a colocar de volta.

A esta hora (13h), estamos chegando lá. Eu, marido, filha, uma cadela e um carro atolado de coisas, que seriam levadas para a casa da mãe (malas, zilhões de embalagens de encomedas de papai Noel, penteadeira infantil, geladeira de brinquedo, gaiola do periquito que fugiu e outros)ou utilizados na viagem (DVD portátil, livros infantis, travesseiros, 3 cadeirinhas infantis...).

Todos já estão com fome. A cadela tem que fazer xixi. Passeamos com a cachorra, mas ela não quer fazer nada.

Colocamos as crianças no carro (7, 4 e 2 anos), a cadelinha e vamos almoçar. Um lanche rápido, para não enrolar mais. São 13h30. O menino não come pizza, a menina não come sanduíche, eu queria empada, mas ninguém gosta. Vamos ao bom Mc Donalds. Para a filha, um Mc lanche feliz com surpresinha. Para o menino, um hamburger (sem carne, que ele não gosta), para a menina, as batatas do menino. Pegamos todo o lanche, inclusive o do pai e vamos para a loja de empadas, para a mãe satisfazer seu desejo. Pai, mãe, 3 crianças e cachorro. Amarramos a cachorra numa árvore próxima, ela não se conforma e chora o almoço inteiro. Enchemos a mesa de coisas do Mc Donalds, usamos o banheiro e pedimos uma empada, um refri e um suco. Depois resolvemos comprar outras coisas para levar para a viagem, para não ficar tão evidente a cara-de-pau.

Finalmente, às 14h30, partimos. Deus abençoe a nossa viagem. Encontramos mais à frente com as duas irmãs, em outro carro - uma saveiro, em que só cabem duas pessoas (e muuuuita bagagem!).

Quase às 17h, na cidade que marca a metade do caminho, após feita a primeira parada para as crianças irem ao banheiro, notamos a falta do carro das meninas. Paramos e aguardamos. Nada. O telefone toca. Elas ficaram paradas na reta final de Vianópolis. Perguntou se chovia? Que dúvida! O carro deu um estouro e morreu. No meio de uma grande poça d'água.

Após chegarmos ao local, desce a irmã do carro, com o seu guarda-chuva de sapo, para ver o que estava errado. Faz pose para foto, a pedidos.



O marido também vai lá para ajudar. Confabulam.



Descobrem que o distribuidor está encharcado. Tentam secá-lo. Nada.

O marido volta ao carro, para estacioná-lo melhor, após terem empurrado o outro para o acostamento.



Felizmente, porque Murphy dá uma trégua no período natalino, aparecem duas almas caridosas, num carro de serviço de manutenção mecânica. Sim, anjos da guarda existem!



Enquanto isso, as crianças resolvem libertar-se dos cintos de segurança e fazer um lanche.





E a cadelinha, também. Que ninguém é de ferro!



Na pausa para a reposição de energias, os anjos também resolveram dar uma parada e descansar. Aproveitando essa brecha, passa um espírito de porco (sim, eles existem em bandos) que, propositalmente, dá um banho de água suja nos dois (marido e irmãzinha) enquanto arrumam umas coisas no porta-malas do carro. Olhem o resultado, que maravilha! O marido fica muito feliz! A irmã também (embora não apareça)!



O restante da viagem tem que ser feito sem camisa, porque as malas estão no fundo, atrás de todas as encomendas natalinas em seus embrulhos de papel que molhariam na chuva. Ê, Murphy, cadê a nossa folga?!

Os prestativos e eficientes rapazes finalmente fazem o carro funcionar. Após mais duas paradas, chegamos ao nosso destino. Às 20h, para o jantar!

Está inaugurada a temporada de férias da família!!

P.S.: Nos próximos dias, estaremos viajando. Pode ser que o blog entre em recesso. Ou não. Como diria nosso querido Caetano.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

A primeira formatura a gente nunca esquece

Minha filha, que recém completou sete anos, conseguiu seu primeiro êxito acadêmico - graduou-se com louvor na educação infantil (antigo Prezinho, antigo 3º Jardim, atual 1º ano do ensino fundamental. Vá querer entender...)



COISA MAIS LINDA!!!

Senti-me a mãe da noiva, não, a mãe da filha prestes a receber o Nobel de Física, tamanha a emoção e expectativa.



Gente, que alegria, não tenho mais uma filha analfabeta!
Que alívio!
Agora ela pode pegar ônibus, saber se o banheiro está livre ou ocupado, se é feminino ou masculino (se não tiver figurinha), discernir entre um vidro de limpa-vidros e de amaciante para passar roupas, identificar se o líquido que pretende ingerir é um veneno ou um xarope...
Ai quantas maravilhas nos revela esse mundo das palavras... Que emoção ao ouvi-la ler e recitar os poemas infantis de Cecília Meirelles e contar-me as aventuras de Dom Quixote tiradas dos quadrinhos de Monteiro Lobato. Que emoção ao ouvi-la ler as placas de trânsito, os avisos no elevador, o rótulo de tabasco, a caixa de cereais....

Uma amiga comentava em seu blog a velocidade com que seu bebê chegara aos 18 meses e dizia que em nenhum momento teve pressa de que isso acontecesse, que o tempo se acelerasse. Comentei que eu era exatamente do grupo oposto, a de que torcia para que meu bebê tivesse logo uns quatro anos. É verdade que continuo tendo certo pânico de bebês (muito frágeis e dependentes para o meu gosto). Quando vejo fotos ou filmes de quando ela tinha meses, um ou dois aninhos, aquela bolinha de fofura, sinto saudades, mas vontade alguma de reviver. Entretanto, se pudesse escolher uma idade para congelar o tempo seria essa. Nesse momento em que ainda é roliça e apertável como um bebê, tem aquela vozinha de criança, acredita em papai Noel e coelhinho da Páscoa, vez ou outra ainda foge para a nossa cama, raciocina sob aquela deliciosa lógica infantil, mas já tem argumentos para defender seus desejos e pontos de vista, experiência de vida para compartilhar, sabe tomar banho, vestir-se e alimentar-se sozinha. Desses dias sinto nostalgia desde já.

Pedindo a nota

LEI No 8.846, DE 21 DE JANEIRO DE 1994.

Dispõe sobre a emissão de documentos fiscais e o arbitramento da receita mínima para efeitos tributários, e dá outras providências.

Art. 1º A emissão de nota fiscal, recibo ou documento equivalente, relativo à venda de mercadorias, prestação de serviços ou operações de alienação de bens móveis, deverá ser efetuada, para efeito da legislação do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza, no momento da efetivação da operação.

(...)

Art. 2º Caracteriza omissão de receita ou de rendimentos, inclusive ganhos de capital para efeito do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza e das contribuições sociais, incidentes sobre o lucro e o faturamento, a falta de emissão da nota fiscal, recibo ou documento equivalente, no momento da efetivação das operações a que se refere o artigo anterior, bem como a sua emissão com valor inferior ao da operação.

Pense numa coisa que me irrita é loja, empreendimento comercial ou profissional autônomo que, descaradamente, não entrega o recibo ou cupom fiscal. Faz um tempinho que decidi ser chata e fazer a minha parte como consumidora e cidadã para que todos paguem os impostos a que são obrigados e, assim, contribuam para a melhoria dos serviços públicos em nossa cidade.

Então, toda vez que faço uma compra, vou a um restaurante, ao salão de beleza ou à padaria, peço a nota fiscal. Sou uma fisco-chata. A padaria a que costumo ir, que se chama Pão Dourado, faço questão de nominar, produz quitutes deliciosos, mas tem a cara-de-pau de ter várias maquinetas registradoras obrigatórias e deixá-las desligadas. Usam uma calculadora de mão e passam o valor para o cliente. Sem registro. Ontem comprei uns pães, no valor de R$ 7,64. Como sempre, a impressora fiscal estava desligada. O bloqueto de notas não estava a mão da funcionária. Ela teve que abandonar seu posto, ir ao outro caixa, buscar o bloco de notas. Não me comovi. Esperei tranquilamente. Felizmente não tinha fila, então eu não corria risco de ser alvejada por outros fregueses apressados não imbuídos do mesmo espírito que eu. Acho que esta loja é a terceira filial da rede. Eles parecem estar rachando de ganhar dinheiro, porque a qualquer hora que se vá lá há gente comprando. Em alguns horários, muita gente... Por que não deveriam contribuir com a parte que lhes é devida, com as receitas que vão subsidiar a saúde, a educação, a segurança pública?

Depois coloca-se a culpa de todas as mazelas sociais nos políticos corruptos. Eles certamente têm sua parcela de responsabilidade, mas não a totalidade. Essa culpa deve ser compartilhada e atribuída a outros de direito, como empresários sonegadores de impostos e a sociedade muitas vezes cúmplice ou alienada.

Pensamentos do dia

Nota preliminar: Se o título remeteu à idéia de que haveria em seguida algum pensamento interessante, que o(a) levaria à reflexão ou a algum crescimento espiritual. Esqueça. Procure outra página.

Ontem estava em uma confeitaria aqui de Brasília degustando uma deliciosa e generosa fatia de torta de chocolate com damasco (um de meus prazeres prediletos). De repente, me peguei pensando com pena nas mulheres esqueléticas que continuam fazendo regimes malucos e privando-se de maravilhas da vida.
Em seguida, me veio à cabeça a lembrança dos obesos que se atiram sobre a comida com a ânsia de um faminto no deserto e além de deformarem seus corpos, culpam-se e entristecem-se por isso. Senti pena deles também.
A partir daí, contrariando as minhas vontades, me encheram o pensamento uma sequência de 'penas' variadas:
- Das crianças vítimas da miséria de seus pais e de um país injusto e incompetente, que não consegue dar-lhes uma infância digna e decente;
- De outro lado, das pobres crianças ricas, cujos pais desejosos de suprir-lhes a ausência de amor, atenção e afeto, enchem-nas de presentes e mercadorias para comprar-lhes a redenção e o sossego;
- e como poderia não lembrar dos trabalhadores sofridos, da multidão de escravizados, das mulheres espancadas, dos filhos abortados, das adolescentes prostituídas, dos jovens drogados, das crianças doentes, dos idosos abandonados...

Chega! Não quero pensar nisso! É dezembro, é natal! Quero luzes piscando, pilhas de presentes, papéis coloridos, cartões musicais, amor, carinho, saúde e paz.
Quero um próspero ano novo, com muito sucesso e realizações... Muitas alegras e felicidades!... E dinheiro no bolso também!

Pronto, já esqueci toda a miséria. Ou quase. Penso que somos todos, de uma forma ou de outra, miseráveis. Carentes... Pequenos... Frágeis...
Mesmo assim, ... Papai Noel, quero pedir que neste Natal e nos próximos também ninguém seja merecedor da pena alheia.
Obrigada!

domingo, dezembro 09, 2007

Meu avô

Hoje faz 3 anos que meu avô morreu.
Há quem morra e passe dessa para melhor, há quem desencarne, há quem vá sentar-se ao lado do Senhor, há quem vire purpurina. Acho que meu avô cansou-se. E morreu.
Meu avô era especial. Ele era único.

Às vezes ainda sonho com ele. Ou acordo pensando nele. Noutras me pego quase levantando para visitá-lo em sua casa. A verdade é que ele parece estar por aqui.
Ainda ouço sua voz, rio de suas brincadeiras, choro com saudade.

Quando éramos pequenos ele brincava de cavalinho em seu colo. Pedia para repetirmos, paca, tatu, cotia não. Demorei anos para entender a brincadeira. Ele nunca explicou. Ainda me lembro o dia do insight.

Ele me contava histórias do "seu tempo". De quando era criança e aprontava horrores com seus irmãos. Levava surras homéricas por isso. Seu pai chegava em casa, quando eles estavam dormindo, ouvia o histórico diário da mãe, acordava-os e avisava que, no dia seguinte, quando acordassem, levariam uma surra.
Tenho minhas dúvidas se, mesmo naquela época esse pai acreditava que estava educando. Hoje, vejo como sadismo.

As surras não serviram senão para humilhar, deixar traumas e servir de exemplo de que pai não podia bater em filho. Não bateu nos seus. Uma de minhas tias tem uma lembrança de que levou uma palmada uma vez na sola dos pés de tanto que teimava em andar descalça. Como era coisa rara, ficou na lembrança.

Mas não era doce de candura. Dizem que foi um namorado insuportável e parece que um marido lastimável. Ainda assim, viveu com minha avó até que a morte os separou. Parece que a coisa era meio entre tapas e beijos. A história nos chega truncada. Não sei ao certo como era.

Estudou até o ginásio, na época em que o latim fazia parte do currículo escolar. Foi servidor público mediano. Ministério da Fazenda. Motivo de orgulho. Desde que me entendo por gente já era aposentado. Teve tuberculose e enfisema pulmonar, motivo de sua sina. Bebeu e fumou quanto pôde, até se descobrir doente. Morou no Posto 6 de Copacabana nos áureos tempos do Rio de Janeiro. Conheceu os cassinos e os cabarés. Pagou caro por seus vícios.

Entoava em tom de brincadeira "tornei-me um ébrio na bebida busco esquecer aquela ingrata que eu amava e que me abandonou..." Morríamos de achar graça.

Me cantava La Marseillaise e dizia que era o hino mais bonito do mundo. Gostava de Alvarenga e Ranchinho e assisitia ao "Som Brasil" todo domingo de manhã. Embora não curtisse moda viola, gostava de ficar ao seu lado. Depois ele passava para o Domingo no Parque e ríamos juntos das bobeiras do Sílvio Santos.

Até alguns anos antes de a doença apertar ia visitar a todos da família caminhando. Chegava a andar quase dez quilômetros. Era sarado. Quando nos espantávamos com seu preparo físico, lembrava-nos de seu passado de estivador no cais do porto.

Como era aposentado, não sabia dirigir e minha avó trabalhava fora e quase não parava em casa, ele costumava fazer alguns serviços domésticos. Lavava sua roupa na máquina, passava suas camisas e lavava louça. Depois secava tudo sem deixar uma gota e ninguém podia usar a pia para não molhá-la. Jogava o lixo fora, trocava o saco e não queria que ninguém o sujasse. Tínhamos que ir lá fora do apartamento para jogar o lixo fora. Era homem de manias.

Tinha um mau-humor antológico, para não dizer patológico. Eu era a neta mais velha e usufruía de certa predileção, o que me fazia ser poupada de algumas de suas pérolas de indelicadeza. Não era incomum a gente ligar para lá e ao atender, antes de qualquer palavra, ele simplesmente dizer que minha avó não estava e bater o telefone na cara de quem quer que fosse. Quando estava de bom humor, perguntava: "adivinha quem está em casa?" E a gente já sabia a resposta, mas sempre dava corda - quem? E ele enumerava - eu, seu avô, o pai da sua mãe, o marido da Dulcinéa.... Quando alguém ia visitá-lo e ele não estava a fim de visitas ou não abria a porta ou abria, olhava e fechava na cara da pessoa. Sem cerimônias. Quando estava de bom humor, abria a porta com um sorriso "oh, a que devo essa nobre visita?". No meio da conversa perguntava - você quer que eu te mande à ou para a? E ao se despedir, sempre repetia "não tive prazer nenhum em vê-lo" e a gente respondia: a recíproca é verdadeira.

Adorava crianças e as crianças o adoravam. Tinha um carisma especial, misturado com sua antipatia. E uma coleção de bugingangas do Vasco da Gama, uma mãozinha de madeira de coçar as costas e alguns rádios de pilha para ouvir os jogos e a Super Rádio FM, que só tocava música "de velho", assim eu achava. Alguns desses foram com ele para debaixo da terra.

Quase não acreditei quando o vi estático naquele caixão. Queria que se levantasse e me contasse mais histórias de seu tempo de menino. Ou de seu tempo de adulto. Quando passaram um aperto, não tinham nada para comer e ele recebeu de herança uma coleção de sapatos que foi trocada por vidros de leite para as crianças.

Tomava café com dois dedos de açúcar. Adorava cocada. Era mineiro de Carangola e carioca de coração. Chamava minha avó de seborréia e diarréia e a gente se divertia com essa palhaçada nada politicamente correta. Ele definitivamente não era politicamente correto.

Sobre política e arquitetura, foi quem conseguiu me ensinar qual prédio era o da Câmara e o do Senado, o da abóboda para cima ou para baixo: "o prato que tá virado para cima é o dos deputados, que roubam o dinheiro do povo e o para baixo é o dos senadores, que escondem tudo lá embaixo". Nunca mais esqueci.



Não era religioso. Talvez fosse ateu. Não gostava de padres, nem de igreja. Mas ía às festividades religiosas. Foi ao batizado da minha filha, apesar do tubo de oxigênio ligado a uma sonda que não podia mais sair de sua narina. Dizia que era o homem-pipa, com aqueles tubos saindo dele como uma rabiola sinuosa.


Morreu aos 80 anos. Deixou uma esposa, seis filhos, dezoito netos, quatro bisnetos (que já viraram 8) e uma saudade que não se conta.

Um beijo, meu avô do coração.
(1924-2004)

sábado, dezembro 01, 2007

Escritores da Liberdade

Meu Deus, fui indicada para um prêmio virtual. Um prêmio de Blog. Coisa chique!
Nunca tinha ganhado prêmio nenhum. Nem de Bingo. Nem no Azarão. No Azarão, eu sempre dou azar e tenho a pedra sorteada! Murphy, claro.

Pois é, um prêmio. Não posso mentir e tenho que confessar que nem não entendia como era esse troço. Então tive que ir voltando desde o blog da pessoa que me indicou*, passando pela que a tinha indicado, até compreender (mais ou menos) como a coisa funcionava.

Imagina, euzinha, que ainda estou aqui chegando na blogosfera, lutando para conseguir escrever uma bobagem vez ou outra, indicada para prêmio. O nome era mais chique ainda: "Prêmio Escritores da Liberdade" e foi criado pela autora do Batom Cor-de-rosa,um blog muuito legal que vale a pena visitar e ler (conheci hoje, mas já estou recomendando).



A idéia, pelo que entendi (espero não ter viajado na maionese) é valorizar aqueles que se expressam livremente** e a regra é que cada 'contemplado' indique outros três.
Então aqui vai a minha lista tríplice. Todos são de pessoas muito queridas e especiais. Uma eu conheço de verdade. É colega de trabalho (em órgão distante, mas quando nos encontramos estamos próximas), ótima cronista. Está se desenvolvendo nisso. As outras duas, não conheço. Quer dizer, não na maneira tradicional de se conhecer. São mulheres de quem me tornei fã virtual. São tão livres e verdadeiras ao se expressarem que me fizeram admirá-las de longe.

Luci Afonso: Luci Afonso - ela tem um jeito franco, bem humorado, perspicaz para transformar em histórias muito gostosas os fatos cotidianos e triviais da vida.

Carina Paccola: Idéias & Letras. Ela é jornalista, mulher, sensível, inteligente, sincera, crítica, defensora ferrenha de suas idéias (não necessariamente nesta ordem).

Keiko: Tirando o Sapato. Brasileira doutoranda morando no Canada e atualmente também mãe de um princhuquinho, ela é engraçada, carismática, divertida, simples, inteligente, franca, amiga, carinhosa. E assim também são seus textos.

* a pessoa que me indicou não é a pessoa, é A PESSOA. Amigona muito amada, temos um continente a nos separar, mas os corações muito próximos. Irmãs que a vida fez. É pessoa de inteligência, humor e coração singulares. Tem na verdade, não um caminho a lhe guiar, mas um trilho ao qual se conecta. Suas palavras me fazem rir, me ensinam, me emocionam, me espantam. Podem ser quentes ou gélidas, o meio-termo não lhe é peculiar. Sou e sempre serei sua fã incondicional.

** A liberdade é um dos conceitos mais complexos que creio exitir. Perseguimo-la (credo, que esdrúxulo!) incansavalmente, mas não sei se um dia a conheceremos em sua plenitude. Acho que somos, por nossa natureza de humanos, seres a priori não-livres. São tantas as nossas prisões interiores, emocionais, familiares, sociais! (já falei disso aqui) Que já não sei até que ponto me expresso com total liberdade. Não sei até que ponto mereço a honraria que minha amiga me fez. Se não estou segura para concordar, só me cabe agradecer.

Política e políticos brasileiros

Adorei hoje a fala de Arnaldo Jabor na CBN. Para quem quiser curtir:

http://cbn.globoradio.globo.com/cbn/wma/wma_e.asp?audio=2007%2Fcolunas%2Fjabor%5F071130%2Ewma&OAS%5Fsitepage=sgr%2Fsgr%2Fradioclick%2Fradiosam%2Fcbn%2Farnaldojabor1

Dizia ele que a incompetência, o descaso, a picaretagem política e a demagogia, no Brasil, sempre faturam duas vezes. Uma vez quando o político chega ao cargo e não faz nada, só fica usufruindo das benesses. E outra, quando acontece algum vexame, por causa de sua incompetência, e ele também acaba faturando em cima disso. E comenta os ganhos da governadora Ana Júlia - a 'bailarina de Catimbó', como ele a chama - que, para aparecer de bonitona e eficaz, decidiu, após o vergonhoso caso da menina de 15 anos que ficou 27 dias trancafiada com 20 homens, sendo sucessivamente estrupada em troca de comida, baixar um decreto proibindo a prisão conjunta de mulheres com homens (????), ou seja, proibindo o que já era proibido (e que ela e toda a burocracia paraense deveria estar trabalhando para garantir). Aliás, fiquei curiosa para saber se ao final do normativo existe o famoso "revogam-se todas as disposições em contrário"!

Não bastasse essa rigorosa medida, tomou outra (que mar de competência!): mandou d-e-m-o-l-i-r a prisão.

Perceberam a sutileza? Viram a lógica do processo? Se todas as normas são descumpridas pelas autoridades teoricamente competentes e sucessivos crimes ocorrem em determinado prédio, que explodam o edifício! Certamente, ele foi o culpado. Devia estar 'possuído' e merece ser aniquilado.

Só pode ser a lógica ensinada e praticada no Instituto de Altos Estudos petista (se é que ele existe).

No local da carceragem, será construído um centro de triagem com espaços exclusivos para mulheres. Que romântico! Que maravilha!! Até me fez lembrar o Marco Zero, em NY. Provavelmente, o centro terá uma placa de homenagem à menina. O governo federal, tão bonzinho e eficiente, depois de toda a repercussão - nacional e internacional - do caso, anunciou, prontamente, a liberação de R$ 89,9 milhões para o estado investir no setor. Agora, né?! Pena que o Pará não pode usar o dinheiro, porque tem dívidas com a União! Outro golpe demagógico! Não podemos acusá-los de falta de esperteza!

Como diria o Renato Russo, que país é este?!



Infelizmente, desde a sua morte as coisas não mudaram muito por aqui.


Fonte: JBONLINE - 30/11/2007 - Fernando Exman (http://jbonline.terra.com.br/editorias/pais/papel/2007/11/30/pais20071130006.html)

quarta-feira, novembro 21, 2007

Edith Piaf - Um hino ao amor


Sexta passada fomos ao cinema assistir ao filme sobre Edith Piaf. Achei que fosse gostar, mas gostei muito mais. Sabia que sua vida fora difícil, mas ainda me surpreendi. Não precisa dizer que chorei lágrimas e lágrimas. Ao final, no banheiro feminino só se escutavam os sons de funga-funga e viam-se narizes vermelhos transitando apressados.
Desde então pus meu CD de Bibi Ferreira cantando Piaf no carro e é só isso que tenho escutado.
Seguem dois vídeos para quem quiser desfrutar do prazer dessa voz belíssima que toca o fundo do coração:

Non, je ne regrette rien


La vie en Rose

sexta-feira, novembro 16, 2007

(Não) falando de amor


Estou estudando espanhol e meu professor é fã das novas tecnologias aplicadas ao ensino. Então temos um forum virtual onde exercitamos a habilidade de escrita e argumentação.
Nesta semana, o tema que ele escolheu foi "amor e paixão". Aí eu percebi o quanto me era complicado falar disso.
Deu branco!
Justamente para mim, cujo lema de vida um dia já foi "viver e não ter a vergonha de ser feliz, amar e amar e amar e não ter a vergonha de ser um eterno aprendiz" (adaptação da canção de Gonzaguinha).
Ele perguntava se existia o amor e a paixão e se já tínhamos experimentado isso. Claro que sim. Claro que já. Inúmeras vezes. De tantas formas diferentes, que já perdi a conta. Amor amigo, amor amante, amor colegial, amor adolescente, amor universitário, amor apaixonado, amor louco, amor pé-no-chão...
Ele não perguntou, mas claro, já sofri muito de amor. Já fui ao fundo do poço. Já quase morri de amor.
Ah, até já acreditei em morrer de amor!
Queria a todo custo encontrar o amor ideal. O amor vivo, apaixonado, a alma gêmea. Creio que encontrei.
E foi infinito enquanto durou, assim como o poema do meu encantado Vinícius.
Depois acho que me tornei mais prática. E desisti de sofrer por amor. E quis procurar um amor real. De carne e osso. Um amor que não me fizesse sofrer. Um amor cotidiano. Um amor que andasse junto de mim. Que tentasse, que procurasse, que quisesse, que sofresse, que chorasse, que temesse... Tudo junto.
Creio que encontrei.
Houve época em que eu preferia sofrer por amor do que não amar. Hoje não prefiro mais.
Creio que amadureci (ou envelheci?).

Como ainda não aprendi a falar de amor, deixo aqui as palavras do mestre.

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vive-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Mais de Brasília

Essas fotos foram tiradas em setembro, mais especificamente num fim de tarde do dia 16. Era auge da seca e a sensação (visual) que tivemos era a de passear por um campo em um inverno gelado.



Simples - Ser ou não ser



Ustedes cuando aman
exigen bienestar
una cama de cedro
y un colchón especial
nosotros cuando amamos
es facil de arreglar
con sábanas qué bueno
sin sábanas da igual.


(Ustedes y nosotros - Mario Benedetti, en El amor, las mujeres y la vida. 16ª ed. Madrid: Santillana Ediciones Generales, S.L.

Simplicidade...

Admiro as pessoas que a cultivam. Não sou assim. Não estou acostumada a ser assim.
Prefiro amar em lençóis de seda (se pudesse), deitar em travesseiros com penas de ganso em uma cama super king. Acho lindo amor na relva, nas pedras à beira-mar, na areia da praia. Na teoria. Na prática, simplesmente, não combina comigo. Penso no mato pinicando, nas pedras arranhando, nos grãos de areia se enveredando por caminhos indesejáveis. Não dá.

Hoje escrevi num post de uma apresentação virtual em um curso a distância de que estou participando: sou uma urbanóide inveterada. Falava do meu desconforto no campo e nas cidades pequenas - sem cinema, sem hospitais confiáveis, sem banco 24 horas, sem agito. Tudo bem que sem poluição, sem estresse, sem trânsito caótico e risco de sequestro relâmpago. Ainda assim, adoro as cidades! Seu agito, o movimento, os barulhos, as ruas asfaltadas, os pisos de granito, os monumentos, os museus, as histórias, as inúmeras possibilidades.

Gosto dos encontros e do anonimato das grandes cidades. Dos cafés e dos bares. Da gente que anda apressada. Dos prédios desafiando os céus. Das pontes e viadutos. Das luzes, das luzes, das luzes...


Copyright: Donald R. Swartz (http://www.shutterstock.jp/language.pt/pic.mhtml?id=2740583)

terça-feira, novembro 13, 2007

Primavera em Brasília

Sou fã desta cidade onde nasci. De sua concepção, sua arquitetura, suas curvas, suas retas, suas ruas, seus espaços, seus jardins. Sobretudo de seu céu e suas flores, que agora, na primavera, após as primeiras chuvas, surgem radiantes, estrelas conscientes de sua grandeza e elegância.


segunda-feira, novembro 12, 2007

Folga, que folga?

Quanto tempo sem passar por aqui!
Estava de férias de mim mesma. Pena que a cada vez que passava por um espelho, lá estava eu, a me perseguir. Por isso é que nessas horas gosto de deitar na cama e olhar pro teto. Olhar para o branco e deixar o pensamento fluir...
O problema é que logo esse branco vira uma mancha aqui, outra acolá, uma poeira atrevida, uma quina lascada. Necessidade de pintor, marceneiro, conversa com empregada. E lá se vai, num lampejo de instante, o meu descanso, a contemplação, a fuga planejada.
Tirei uma semana de folga. Dias de recesso não gozados à época. Tinha que aproveitar. Fui ao verdureiro, ao cabelereiro, ao médico da filha, à psicoterapia. Fiz unha - mão e pé - e depilação - completa (poupem-nos dos detalhes sórdidos). Massagem não deu tempo. Arrumei armário, mala para viagem, caixa de papel velho. Resolvi pendências de trabalho, estudei, fiz exames - ecografia, mamografia, histerosalpingografia. (Que não me venham com novas grafias!)
Acordei cedo todos os dias.
É... não tive folga!
Não vi Sessão da Tarde, Vídeo Show, nem Vale a Pena ver de novo. Não dormi todos os dias após o almoço. Não fui ao cinema. Vi Jô Soares uma noite. Jornal não vi. Ufa!
Nem fiz compra de mercado. (Hoje almoçamos sem feijão!)
Passamos o fim-de-semana em São Paulo. Festividades de família. Encontro, abraço, beijo, festa, riso. Museu, livraria, comida boa, pulsação. Tudo muito bom! Menos a despedida. (e o trânsito!)
Saudade, gosto de quero-mais.

terça-feira, outubro 23, 2007

Gerúndios e gerundismos

O gerúndio é um tempo verbal muito útil, que se destina a expressar ações em desenvolvimento. "Neste momento, estou digitando no meu teclado." Indica uma ação que está ocorrendo agora, mas que continuará no futuro próximo.
Também pode ser usado para uma ação que se desenrolará no futuro. Se uma amiga me ligar querendo marcar um encontro no próximo fim-de-semana, posso responder: "sinto muito, mas estarei viajando a semana inteira, podemos marcar em outra data." Ou, claro, também no passado: "Desculpe-me, não pude ir à reunião porque estava participando de uma competição naquele horário."

Tudo muito simples, tudo muito óbvio, parece que todo falante de língua portuguesa compreende isso. Mas não é bem assim. De um tempo para cá, as pessoas começaram a super-utilizar o gerúndio, estendendo seu uso para ações que seriam pontuais. Os serviços de telemarketing e atendimento ao cliente parece que contribuíram para essa epidemia. Essa distorção ficou conhecida como gerundismo:

- Fique tranquilo, que estarei enviando sua reclamação para o setor responsável.
- Estaremos encaminhando sua solicitação imediatamente.
- Estaremos abrindo um chamado do seu problema e retornando sua ligação.



Isso causa certa antipatia, mas atingiu proporções governamentais aqui na capital federal. Início deste mês nosso governador atingiu notoriedade, após a publicação de um decreto que versa sobre o tema, o qual não poderei deixar de transcrever abaixo:


"Decreto nº 28.314, de 28 de setembro de 2007.

Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências.

O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo
100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:

Art. 1° - Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.
Art. 2° - Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.
Art. 3° - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, 28 de setembro de 2007.

119º da República e 48º de Brasília
JOSÉ ROBERTO ARRUDA"


Algumas perguntas que não querem calar:
- Dentre as atribuições listadas no artigo 100 da Lei Orgânica do DF encontra-se legislar sobre a utilização dos tempos verbais, por meio de DECRETO?
- Quando o Gerúndio tomou posse? Que cargo e função ele exerceu no Governo todos esses anos e como ele podia estar simultaneamente em todos os órgãos do GDF?
- Em que gramática está documentado que a função do gerúndio é ser desculpa de ineficiência??
- Quais são as disposições em contrário??

Enquanto não descubro as respostas para as minhas quatro perguntas, aproveito para a contar o acontecido de hoje em meu local de trabalho, uma repartição pública do governo federal, onde - ainda, pelo menos - podemos lançar mão de todos os tempos verbais, como rezam as cartilhas democráticas. Aliás, até comentávamos na seção - enquanto dobrávamos e envelopávamos centenas de folderes para um evento - que felizmente não estávamos no GDF, senão não poderíamos fazer aquela tarefa. Lá, ou você envelopa, ou já envelopou ou vai envelopar. Ficar por duas horas envelopando não seria permitido. Nem passar uma hora e meia redigindo um parecer ou a tarde inteira atendendo ao público. Não sei como ele vai conseguir ser eficiente, eficaz e efetivo, desta maneira. Mas, perdoada a digressão, voltemos ao causo:

Toca o telefone. Era outro ramal, mas puxo a ligação no segundo toque, como manda o manual.
- Centro de Formação, Juliana, bom dia!
- Eu queria falar com a pessoa responsável pelo evento que vai acontecer em Salvador.
- Ela está em uma outra ligação neste momento. Você quer aguardar um instante?
Deixo passar alguns segundos para ver se minha colega finaliza o telefonema...
- Veja, você não prefere que eu anote seu número e ela te ligue quando terminar a ligação?
- Ah é bom, porque estou falando da Bahia. (breve pausa) Aí ainda é permitido o gerundismo, é?
- Como assim?! (surpresa!) Eu falei "você não prefere que ela te ligue?", não usei gerúndio!!?
Neste ínterim, minha colega termina a ligação.
- Olha, ela terminou a ligação, posso transferir você para ela agora.
- Ah, é melhor, né? Vamos deixar o gerundismo de lado!
- ???

Agora, na Bahia, gerundismo tem outro significado???!!!

segunda-feira, outubro 22, 2007

Tropa de Elite




"Tropa de elite, osso duro de roer,
Pega um, pega geral, também vai pegar você."

(Tropa de Elite, Tijuana)

Adoro filmes policiais, adoro seriados policiais.
Qual não foi minha satisfação ao assistir, pela primeira vez, um verdadeiro exemplar do gênero - brasileiro!
O gosto foi tanto que vi duas vezes na mesma semana - no cinema, registre-se!
A discussão na mídia está intensa. Uns criticam a violência. Outros a possibilidade de a população mitificar a ação truculenta da polícia de elite, considerando-a legítima.
Particularmente, não creio que o filme seja exatamente violento, infelizmente a realidade na qual ele se baseia o é. E talvez muito mais do que a que está ali retratada. Numa das cenas sórdidas em que dois bandidos decidem se vingar dos mauricinhos maconheiros metidos a engajados em movimento social (não por algo que eles tivessem feito, claro) certamente está muito aquém do que talvez se visse na vida real. Talvez a bela mocinha não recebesse somente um quase benevolente tiro na testa. Talvez eles tivessem a idéia de 'divertir-se' antes. Talvez o rapaz não fosse rapidamente incendiado, talvez o fizessem sofrer mais antes disso, como fizeram com Tim Lopes.
Noutra, em que se mostra uma cena de tortura policial que pretendia obter uma informação preciosa de um garoto, além da fatídica técnica "do saco", o grupo ameaça violentá-lo com um cabo de vassoura. Felizmente - para ele e para os expectadores angustiados - o menino acaba cagüetando o paradeiro do "dono do morro". Talvez, na vida real, a barbárie não parasse por aí.
O fato é que - querendo ou não, gostando ou não - a polícia existe para exercer a força, o poder de coerção e garantir o Estado de Direito. A pergunta que me faço é se haveria e quais seriam as alternativas do Capitão Nascimento ao lidar com bandidos inescrupulosos e sanguinários, da laia dos narcotraficantes cariocas.
Nos seriados americanos a que eu gosto de assistir, aqueles em que não há a figura do policial machão estilo Capitão Nascimento (que, aliás, está um gato!), os policiais têm que seguir regras rígidas (assim como os brasileiros) e se, por acaso ou por opção, saem do manual têm a Corregedoria em seu encalço - que parece não dar mole por lá (por aqui aparenta bem mais maleável). Então, após um longo período de investigação, infiltração, toda sorte de técnicas de inteligência, eles prendem os bandidos, lêem seus direitos e os levam para a prisão. Há uma audiência em que, dependendo do caso, será negociada uma fiança. No caso de bandido rico, a fiança nunca é inferior a 500 mil dólares. No caso de bandido que apresenta perigo à sociedade e risco de fuga, a fiança nunca é concedida e ele aguarda preso. Depois (mas não tão depois), haverá um julgamento com júri popular e ele pegará prisão perpétua e, pasmem, ficará preso até o fim da vida. Aqui por essas bandas, na vida real, o limite da pena é de 30 anos e, se bobear, o malandro sairá após ter cumprido um sexto do período inicialmente estipulado. Mesmo porque não há prisão para todos os condenados! Aqui, há indulto de fim-de-semana e até sociopata é liberado (mesmo contra a vontade de toda a família) e tem a oportunidade de fazer mais vítimas pelo mesmo crime que motivou sua prisão. Aqui, há um sistema que favorece a mentira e a corrupção (em todos os escalões da polícia e no âmbito dos três poderes). Aqui um PM ganha 900 reais, um soldado da tropa de elite ganha a super gratificação de 500 reais e pode elevar seu soldo para 1400 reais. Aqui o policial mora na vizinhança do bandido. Aqui não há treinamento nem armamento adequado para todo o contingente.
Aqui, agora, eu compreendo o Capitão Nascimento.
Não concordo, mas compreendo.
Bem, afora tudo isso, o filme é muito bem rodado, o roteiro, muito legal, a trilha sonora está fantástica e incorpora uma personagem essencial no filme, os atores estão arrasando (menos a esposa do Capitão, que é uma chata de galocha e trabalha mal à beça) e, até que enfim, o que considero um de seus grandes méritos - mostra o cotidiano e o ponto de vista do policial brasileiro, trabalhador, que sofre, que ama, que adoece, que erra, que quer acertar, que quer consertar, que tem medo, remorso, inteligência, ideal, senso de humor... igual a gente...

sábado, outubro 13, 2007

Sobre sentir-me feliz

Às vezes me sinto culpada, pois deveria sentir-me feliz mas não me sinto.

Deveria sentir-me feliz pois tenho um trabalho legal, que me realiza, quando moro num país de exclusão em que tantos não têm nem algum que sirva para o sustento.
Mas não me sinto.
Deveria sentir-me feliz por ter uma família legal, que conversa, que se diverte junto, que tenta viver o presente e planejar o futuro.
Mas não me sinto.
Deveria sentir-me feliz por ter uma filha linda, carinhosa, inteligente, meiga, decidida...
Mas não me sinto.
Deveria sentir-me feliz por ter um corpo saudável, não precisar tomar medicamentos controlados, fazer dieta, nem estar ligada a aparelhos.
Mas não me sinto.

Tudo isso me faz pensar que o estado de felicidade independe muito menos de fatores externos do que internos.
Que se quisermos buscar um estado de felicidade - como já pregavam nossos sábios ancestrais - o olhar, o coração, o espírito devem voltar-se para dentro ... e para cima.
Por outro lado, percebo que pensar em todos os motivos externos que tenho para estar feliz me deixa mais feliz.
O que me faz questionar se muitas vezes não temos (tenho?) uma tendência para focar nos outros mil motivos que temos (tenho) para não estar bem.
No sonho de infância que não realizei, no que poderia-ter-sido-mas-não-foi, nos amigos que já não tenho, no que queria fazer mas não posso, na banheira de hidromassagem que não possuo (e que se possuísse provavelmente não usaria), no tempo que passou, no corpo que já não é o meu, no filho que não nasceu, no dinheiro que perdi,...

De repente, minha filha passa aqui literalmente dando pulos e gritinhos de alegria porque conseguiu passar para a próxima fase do jogo eletrônico - feito nunca dantes realizado. "Estou tão emocionada!", ela dizia, com um sorriso radiante como quem acaba de quebrar um recorde olímpico.
Penso que a felicidade é realmente algo muito simples, que quando a gente cresce complica muito e acaba por perdê-la de vista.

domingo, outubro 07, 2007

Questionamentos de um domingo à noite

As respostas que não possuo para resolver coisas na minha vida enchem bibliotecas. Algumas dúvidas me atormentam neste exato instante:

- Por que sempre deixo para depois o que não gosto de fazer?
- Por que existe tanta coisa que não gosto de fazer?
- Por que tenho que fazer o que não gosto?

- Por que como tanto chocolate e bebo tanta coca-cola se sei que isso não faz bem a minha saúde?
- Por que comer chocolate é tão mais gostoso que comer maçã e coca-cola é tão melhor que suco de melão?
- Quem me convenceu de que quero ser saudável?

- Por que tenho vontade de ler quando é hora de dormir e vontade de dormir quando é hora de ler?
- Por que tenho tanto sono de manhã e o mesmo não acontece à noite?
- Por que tenho vontade de estar em casa quando estou no trabalho e vontade de trabalhar quando estou em casa?

- Por que os problemas parecem tão menores quando acabo de resolvê-los?
- Por que não me convenço disso enquanto preciso tomar alguma decisão que me parece impossível?

- Por que me é tão difícil juntar dinheiro?
- Por que me é tão bom gastar dinheiro?
- Por que me é tão chato falar de dinheiro?
- Por que todo mundo não tem muito dinheiro?

- Por que acho tão bom fazer aniversário e tão chato ficar velha?
- Por que acho tão bom amadurecer e ser independente e tão desagradável criar rugas e ter que pagar as próprias contas?

- Por que estou escrevendo aqui em vez de terminar o trabalho que tenho que apresentar amanhã?
- Por que preferi acordar tarde, ir a um churrasco com amigos, dormir, brincar com a minha filha, em vez de terminar minha obrigação primeiro?
- Por que a vida é assim?

sábado, setembro 29, 2007

Coisas de marido

Nota preliminar: Declaro ao povo brasileiro que os acentos e o mouse retornaram ao trabalho, após uma interferência do marido tecnológico. Dedico este post a ele.

Ter um marido é algo muito bom, geralmente. (Não se iludam, só é 'sempre' bom quando a gente NÃO tem um! Também não me iludo, sei que eles acham a mesma coisa. Aliás, há coisas que são bem chatas. Mas destas, falo em outra ocasião.)

Hoje quero lembrar de algumas que são especialmente boas:
- dormir abraçadinho quando está frio;
- aquecer o pé gelado entre as pernas dele (mesmo quando feito à revelia);
- ganhar cartãozinho de aniversário e flores de casamento;
- ganhar massagem nos pés;
- ter um colo para chorar as pitangas;
- ser ouvida e compreendida (esse kit é acessório, não vem em todos os exemplares);
- ter uma companhia certa para sair os fins-de-semana;
- não ter que depilar as pernas e ainda assim ter a noite garantida.

Tá, tudo bem, é bem verdade, que essas coisas não são privativas de marido. Mas há umas que só marido faz e essas não têm preço:

- segurar sua cabeça e levantar seu astral enquanto você vomita por três meses durante a gravidez;
- segurar a sua mão, massagear suas costas, correr atrás do obstetra, do pediatra, da auxiliar de enfermagem que carrega o seu bebê, para não perdê-lo de vista e registrar, de um bom ângulo, o momento;
- garantir água gelada e em quantidade suficiente enquanto você está amamentando;
- trocar fralda, fazer mamadeira, dar carinho e colo, quando seus olhos não abrem e seu corpo não responde;
- cuidar da filha enquanto você viaja a trabalho, a descanso, para casamento de amiga ou durante seu curso de pós-graduação;
- te amparar e te carregar no colo quando você está a desfalecer, botando os bofes para fora;
- abrir tampa de geléia;
e tenho visto ultimamente:
- baixar fotos, organizar arquivos, rodar anti-virus, diagnosticar (e resolver) problemas de conexão e outros detalhes telemáticos;
- instalar chuveiro elétrico (quanto a este tópico teria fotos bem atuais para mostrar, mas antes de tivesse a oportunidade de fotografar o marido suando em bicas sob a luz do teto a 15 cm de distância, ele foi surpreendido por um inesperado choque elétrico que o deixou, no mínimo, desconcertado (a indicação do disjuntor estava errada e os fios não foram desligados. Assim, para evitar desgate na relação, achei mais prudente não propor o registro do momento)

- consertar os brinquedos estregados da filha e o porta-anéis da esposa:




Obs.: a técnica de fixação da estrutura (utilizando-se de avançado design e modelagem com elástico) demorou cerca de 1 hora para ser finalizada.
Deus abençôe aqueles que têm bom coração e que perseveram em seus ideais.
Aproveitando, Senhor, se eu estiver em crédito por aí, aproveito para pedir também que preserve os maridos perseverantes e cuidadosos sempre ao lado de suas esposas e que arranje maridos fiéis, sensíveis e românticos a todas aquelas que estejam desejando, porque a carestia tá braba!

Abraços a todos os meus amigos leitores e ao meu marido - tão querido e especial.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Doce de leite Viçosa

Algumas informações preliminares:

1. Adoro doces! Dentre todas as delícias que já experimentei na vida, há duas que considero insuperáveis: brigadeiro e doce de leite. Posso me considerar uma expert no assunto. Sei o local onde vendem os melhores da cidade. Sou capaz de me despencar de carro 10km para conseguir um exemplar, num surto de desejo.

2. Casei-me com um Viçosense (nem sei se é assim que escreve). O fato é que meu amor é natural de Viçosa - MG. Cidade com vocação agricola, situada na zona da mata mineira, famosa por sua Universidade Federal e pelas farras que os universitarios promovem.

Agora sim, ao assunto.
Após alguns meses de relacionamento, tive a felicidade de ser apresentada ao .Doce de Leite Viçosa . Foi amor a primeira colherada. Disse ao futuro marido, na ocasião: "este é o melhor doce de leite cremoso que já experimentei". Isso era 1998. Nao me surpreendeu quando alguns anos depois, foi eleito o melhor do Brasil no Concurso Nacional de Produtos Lácteos. Deveria ter sido chamada para jurada!

Este ano foi tricampeão. Merecido! Portanto fiquei muito feliz, quando uma das minhas iguarias preferidas foi assunto da Revista Vida Simples deste mes. Finalmente, estah vivendo seus momentos de gloria.



Sobre ele, tenho até causo para contar (que já foi contado em livro por conhecido da família, antes. Embora com certa impropriedade. Mas vamos là.

Uma certa vez, abrindo (com fissura) a lata do doce, fiz um corte no dedo que me rendeu uma ida ao hospital e tres pontos no dedo. Duas horas depois, retorno aa casa e encontro minha filha:
- Olha filha, o que aconteceu com a mamãe!!, mostro o dedo com os pontos.
- Nossa, o que aconteceu?? - pergunta impressionada
- Cortei o dedo na lata de doce de leite.
- Foi?!
- Foi. - respondo, aguardando o comentario de solidariedade.
- Era doce de leite com coco ou sem coco?
- ???

Ninguem merece!
A proposito, ela tambem eh fã do doce de leite Viçosa. Mas apenas o SEM COCO! Assim como eu.

p.s.: O teclado continua em greve parcial de acentos. Relevem. Assim que eles tiverem suas reivindicaçoes atendidas, retornarão normalmente ao trabalho.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Coisas a que todo mundo deveria ter direito - Encontro com o Gênio da Lâmpada

Aviso preliminar: somente estão assinalados os acentos gráficos que o teclado permitiu.

Gosto muito da Constituiçao Brasileira no que se refere aas Garantias Fundamentais. Apreciaria muito mais se elas fossem realmente garantidas. O Brasil seria muito melhor e mais feliz! Gostaria mais ainda se fossem direitos estendidos a cada habitante do planeta.

Partindo desse pressuposto, se eu encontrasse um genio da lampada magica e ele fosse mais bonzinho do que aqueles já conhecidos (que so liberam tres desejos), eu pediria para ele o seguinte:

Seu Genio, meu desejo eh que cada ser humano tenha assegurados os seguintes direitos:

1 - de morar no maximo a 25km de seu trabalho;
2 - de caminhar no maximo 500m para pegar sua conduçao;
3 - de soh usar papel higienico de folha dupla ultra macio;


4 - de, no minimo, um banho de ducha (quente ou fria, de acordo com o clima e o gosto do fregues) diariamente (nada de chuveiro caça-filete ou panela furada);
5 - de que, pelo menos 3 vezes na semana, alguem lave seus cabelos e faça massagem capilar (de graça, claro!);
6 - de possuir uma maquina de passar roupa (que nunca deixe sua marca estampada nos tecidos);
7 - de passar, no minimo, duas semanas na praia, a cada ano;
8 - de conhecer a neve;
9 - de conhecer o amor;
10 - de uma xicara de leite quente antes de dormir;
11 - de passar os finais de semana com uma boa companhia;
12 - de ficar sozinho quando desejar;
13 - de ter, no mínimo, um amigo com quem pode contar todas as horas;
14 - de brincar no colo do avô e da avó quando criança;
15 - de ter a sua individualidade respeitada;

Solicito, ainda, Seu Gênio, que se determine a seguinte proibição:
Estah terminantemente proibido, sob qualquer hipotese, a qualquer criança, adoecer.

Era isso, Seu Genio, muito obrigada!

sábado, setembro 15, 2007

Ética (também) se aprende na escola

Tivemos uma semana triste no cenário político Brasileiro. A maioria do Plenário do Senado Federal considerou que o Senhor Renan Calheiros era digno de continuar ocupando uma cadeira naquela Casa. E o pior, ele mesmo considerou-se merecedor, estatelou-se naquela presidência, e vai continuar dirigindo os trabalhos da Casa, comandando a pauta, nomeando pessoas, interferindo no Orçamento...
Talvez ainda não se tenha conseguido provas suficientes, mas havia alguma dúvida da veracidade das acusaçoes?? Isso sem contar nas tantas outras que ainda nao vieram à tona. Mesmo assim, não houve quebra de Decoro? A ética parlamentar não foi ferida?

Hoje de manhã comparecemos à escola de minha filha, pois haveria umas atividades com pais e filhos. Momento de integração - jogos, lanches, bastante diversao. Algumas coisas - muito significativas, a meu ver - me chamaram a atenção.

Estávamos no ginásio da escola e o professor coordenador orientava as atividades utilizando um microfone. Para poderem escutar e compreender era necessário que pais e filhos se mantivessem em silêncio e em seus lugares nas arquibancadas. Que coisa difícil! Algumas crianças, apesar dos apelos seguidos, falavam, conversavam, saíam das arquibancadas e corriam para a frente da quadra. Queriam chegar primeiro ao local da próxima atividade e assim garantir um bom lugar, às custas da quebra dos princípios mais simples de civilidade, justiça e educaçao(Lei de Gerson?).

As brincadeiras desenvolviam-se naquele momento na quadra de esportes e quem quisesse somente assistir ou comer podia sentar-se nos bancos. Mas algumas mães pareciam não perceber isso e levavam lanche para as crianças no meio da quadra. Resultado: sucos derramados, migalhas pelo chão, sujeira, risco de acidentes.

Uma das brincadeiras consistia em, dividido o grande em grupo em dois, cada um ocupando um lado da quadra, seria entregue uma bolinha para cada um. Após o sinal, os participantes tinham que jogar sua bolinha para a outra quadra e tentar devolver as que caissem em seu espaço. Ganharia o time que, findo o tempo, tivesse menos bolinhas em quadra. Soa o apito final. Todos tinham que parar de arremessar bolas. Isso aconteceu? Nao. Nos segundos que se seguiram algumas crianças E alguns PAIS continuavam atirando, chutando discreta ou descaradamente as bolas para a quadra do aniversário. Outros assistiam calados, impotentes, acostumados talvez. O coordenador pede, apela ao grupo, solicita que as professoras ajudantes levem os times para o fundo da quadra e cuidem para que mais bolas não sejam atiradas, ameaça desclassificar a equipe que continuar jogando. Mas não chegou a fazê-lo. Ganha um dos times. A meu ver o que pareceu ter mais participantes burlando as regras e certamente o que mais demorou para chegar ao fundo da quadra.
Moral da história: vence o mais esperto, o que desobedece as normas, dribla as leis, o ardiloso, o desonesto, o inescrupuloso e seus parceiros.

Alguma diferença do primeiro episódio?
Como teremos um país melhor, no futuro, se nao conseguirmos educar as nossas crianças hoje? Como cobrar do político que nos representa se praticamos os mesmos delitos, apenas em esferas ou espaços diferentes?
Se queremos um governo ético (e queremos!), precisamos também desenvolver relações sociais éticas. E isso começa dentro de casa. E na escola.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Minha filha, eu e as frescurinhas da vida

Aviso aos navegantes: nesta mensagem soh haverah os acentos que o meu teclado quis que houvesse.

Eu confesso: adoro frescurinhas!

Poderia tornar a minha vida bem mais fácil, ágil e econômica se não fosse essa caracteristica, eu sei. Mas é assim que eu gosto! Gosto de acessórios - vários, coloridos, diversos - cintos, pulseiras, colares, brincos, prendedores de cabelo, relógios, óculos, bolsas, sapatos... Ah, os sapatos!...

Gosto de coisas da Hello Kitty e da Betty Boop. Se não fosse pelo mínimo senso de ridículo que me resta, teria mochilas, coleção de canetas, papéis de cartas!... Me contento com uma bolsinha, uma bonequinha sobre a cama e outra sobre o computador do trabalho (que roubei da minha filha). Gosto tambem de porta-guardanapos, lencinhos que cobrem garrafas d'água, marcadores de taças, legiões de cremes, enfim, gosto de (quase) todas as inutilidades que o mundo capitalista criou (as tecnológicas, por exemplo, nao me apetecem tanto). Minha mae, quando é época de presente (natal, aniversario...), diz que acha ser muito dificil me dar alguma coisa - "que não preciso de nada". Digo para ela, insistentemente - mae, me de alguma coisa de que eu nao precise, que eu vou adorar! Esta, alias, e a essência do presente - ser algo desnecessário. Senao seria satisfaçao de necessidade, não presente!

Pensei que quando tivesse uma filha, poderia proporcionar a ela a satisfaçao de todas as minhas frescurinhas que não tive a oportunidade de usufruir na infancia - por falta de grana ou por inexistencia do produto, mesmo. Ledo engano! Bem que falaram que a gente não tem que criar expectativas para os filhos e nem esperar usá-los para resolver nossas frustraçoes.

A coleçao de xuxinhas e faixas para cabelo compradas quando ela era ainda bebê, foram atiradas no chao, a partir e desde que ela passou a conseguir mover as maos e desenvolveu a prensao de objetos, ou seja, aos 4 meses de idade. Insisti alguns meses, claro, mas acabei desistindo.

Saias e vestidos sao acessorios desprezados nos grotoes mais longinquos das gavetas e armarios. Os parentes e amigos ja sabem e nao mais presenteiam esses itens comuns ao vestuario feminino. A frase padrao é "mae, eu gosto de short!" Hoje, ja me conformei e ate concordo com ela, salve o conforto! Eventualmente, em alguma ocasiao especial, tento negociar um vestidinho, para variar, e, dependendo do humor, posso ser bem sucedida, ou nao. Neste caso, vai rolar uma calça jeans mesmo ou, preferencialmente, uma calça leg de malha - campea de preferencia.

Se o assunto é sair para comprar roupa ou sapato, nem pensar em levá-la junta - seria o mesmo que convida-la para a forca. Nao tem a mínima paciencia! "Filha, chegou o inverno, esta ficando frio, e precisamos comprar blusas de manga comprida para voce. Nao, mae, nao precisa. Ja tenho uma!" Acabo achando legal o fato de ela ter essa simplicidade que eh dela, entao jah nao insisto nisso. Ela tem o basico, e as coisas dela sao básicas como ela.

Quanto aos brinquedos, tem sua leva de Barbies e Pollies, mas tambem a gama de carrinhos, dinossauros, bichos estranhos (aranhas, lagartixas, pererecas, baratas...), espadas do Power Rangers, pistas de hot wheels...
Para quem, acha que estou exagerando, aqui esta a mostra do visual escolhido para o baile de carnaval e aniversario do ano passado:



Em relaçao a filmes e desenhos, eventualmente rola um filme da Barbie, da Cinderela, ou outra princesa, mas o que gosta mesmo é Power Rangers, Homem-Aranha, Parque dos Dinossauros, Quarteto Fantástico, Casa-Monstro, Piratas do Caribe... Hah um tempo, esta mae, preocupada com a influência de filmes assim na formação de uma criança de 4 anos, quis adverti-la: "filha, vamos ver outra coisa, esse filme (Power Rangers) é muito violento!" A resposta foi simples e objetiva: "mae, eu gosto de violencia!"

Diante de tanta veemência, fui convencida. Claro que ela não eh uma criança de comportamento violento, pelo contrario, eh doce, sensível, sabe dialogar, entao acabamos ficando tranquilos e acreditando que eh, realmente, um gosto pessoal, que nao traz qualquer prejuízo aa sua formaçao e, portanto, pode ser respeitado. Na verdade, nao posso negar que nunca quis que ela se tornasse uma "Barbie Girl" ou uma "princesinha". Sempre estimulei os brinquedos variados, para que tivesse experiencias diversas e desde cedo aprendesse a desenvolver respostas variadas para esse mundo que requer proatividade, flexibilidade e determinação.

Ontem aa noite, estavamos conversando na cama, antes de dormir, quando ela - olhando o poster do 'Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado' colado na porta de seu quarto - começou a lembrar de cenas do filme. Depois, se enveredou para os Piratas do Caribe, os tentaculos do Polvo gigante, patati, patatá. Eu, preocupada de ela ter algum pesadelo, falando disso antes de dormir, sugeri "Filha, vamos pensar em outra coisa, conversar sobre algo mais bonitinho.. Vamos falar do cavalinho da Polly?" E ela, sem titubear, super simpática, 'Vamos!! Ih, o polvo gigante comeu o cavalinho da Polly!' e caiu na gargalhada! Provavelmente rindo da minha tentativa despropositada e patetica!

Ainda nao aprendi que ela nao eh chegada a tantas frescurinhas!

A voce, filha mais que querida, que tantas vezes eh tao diferente de mim, mas que compartilha de valores que considero fundamentais - como o respeito, a preocupaçao e o cuidado com o outro - todo o meu amor e admiraçao.

terça-feira, setembro 11, 2007

Amigas...

Há uma idéia que eventualmente percebo habitar o imaginário coletivo ou o senso comum de que as mulheres são falsas umas com as outras, competitivas, invejosas e incapaz de amizades verdadeiras, especialmente no ambiente de trabalho.
Mentira total! Falo isso com o conhecimento de causa de quem pertence a uma família de mulheres e se dedicou a dois campos de atuação essencialmente femininos - a enfermagem e a educação.

Desde muito as mulheres constituem redes de relacionamento e de apoio mútuo - especialmente necessárias para ajudarem a cuidar da prole enquanto os homens estão fora ou quando elas mesmas precisam ausentar-se para o trabalho. E hoje ainda é assim - com as peculiaridades inerentes aos novos tempos.

O fato é que é simplesmente maravilhoso ter amigas! E que as amigas, ao contrário da maioria dos "amigos", geralmente se permitem conversar sobre tudo. Vão ao fundo das coisas. Pode até ser que haja uma amiga com quem se conversa mais sobre um assunto, e com outra sobre outro. Mesmo assim é comum conseguirem aprofundar-se nesse campo temático ou área da vida - amor, sexo, filhos, marido/namorado/amante, trabalho, arte, família, literatura, grilos, sonhos...

Por outro lado, também é relativamente comum, ser premiada com uma amiga com quem se pode falar sobre tudo, pois ela te escuta, te compreende, sofre contigo, torce por você, partilha de muitos dos seus medos e anseios e possui valores e princípios e um senso de humor semelhante. Quando se tem mais de uma, então, você deve se considerar uma pessoa feliz. Pois amigas são como chocolate - afagam, aquecem, saciam, tornam a vida e as festas especiais e são capazes de adoçar um dia (ou uma noite) de desespero. Com a diferença de que não engordam, não se findam quando se mais necessita, têm braços que abraçam e bocas que beijam, dizem verdades que precisam ser ditas e que se calam quando precisam calar.

Além disso, levam seu filho à escola e cuidam dele quando você não pode ou quando deseja dar uma escapadela com seu amado; acompanham você a consultas médicas, salas de cirurgia, audiências com juiz de direito e outras situações embaraçosas ou desagradáveis; atendem o telefone de madrugada quando você está de fossa ou TPM; amamentam seu filho quando você está impossibilitada; compartilham o visual de uma repaginada estética; riem e choram juntas e trocam receitas culinárias e figurinhas sobre coisas de mulher e, especialmente, fazem tudo com muito prazer e nunca jogam isso na sua cara.

Um abraço apertado, um beijo carinhoso, minha admiração infinita e todo o meu carinho a cada uma das minhas amigas - mulheres, mães, irmãs, colegas - maravilhosas, de todas as horas...

terça-feira, setembro 04, 2007

Sem título


Do outro lado da cidade, do continente, do mundo
Mora algo do que sou.
É para lá que me mudo quando não estou em mim
ou quando não estou nem aí...

A vida passa, as horas passam, mas em mim tudo pára.
O real nem de longe é ideal
E eu ultrapasso o limite do patético.
Como somos ridículos com nossos dramas e preocupações...
Pagou a conta de luz, amor? Tem que passar na padaria. Queria tanto aquele sofá!... entrou em liquidação. Fez o depósito na caderneta de poupança da filhinha? Temos que assegurar seu futuro!

Futuro!?... queria assegurar meu presente.
Se tiver fôlego corro até amanhã. Se não, vou ficando por aqui mesmo.
Me estatelo no sofá, pulo o banho de hoje, assisto à novela e ao Corujão.
Qualquer coisa que me leve de mim, para longe daqui...

segunda-feira, setembro 03, 2007

Cenas do Brasil

Sou servidora pública. Por vocação, com muito orgulho e prazer. Estou na instituição que escolhi, sigo a carreira que gosto, trabalho muito, sinto-me realizada com que faço, acho que faço bem, sou reconhecida e feliz. Batalho por fazer jus a cada centavo que me é pago pela sociedade brasileira.
Sinto-me incomodada, portanto, quando se generalizam comentários ou se dissemina um estigma de servidor público acomodado e incompetente. Tenho muitos colegas extremamente bem preparados, que realizam trabalhos fantásticos e que, certamente, contribuem para fazer deste um país melhor.
Por outro lado, também me sinto incomodada por saber que, infelizmente, esse panorama não está nem próximo da totalidade do que temos por aí. E algumas vezes tenho a oportunidade de estar defronte ou de saber de histórias que mostram isso com muita clareza. É bem verdade também que quanto menor, ou mais afastada, ou mais distante dos olhos fiscalizadores (da mídia, do cidadão, dos órgãos de controle) é a cidade, mais complicada é a situação.

Meus pais moram numa pequena cidade (com cerca de 60 mil habitantes) do estado de Goiás. Apesar de relativamente miúda, talvez seja o maior pólo turístico do estado e, teoricamente, deveria dispor de uma infra-estrutura capaz de atender com qualidade e segurança as milhares de pessoas que visitam o local, bem como disponibilizar serviços que facilitassem a vida das pessoas. Mas a coisa não é bem assim.
Em época de alta temporada, o sistema de água e energia é ineficiente. Não são incomuns os apagões nem o desabastecimento de água. Ainda assim, não se vê um plano diretor ou uma política de desenvolvimento para o local. Erguem-se altos edifícios ao bel prazer dos donos da cidade (há dois grupos que mandam no local e alternam-se no poder como os velhos coronéis do Nordeste). Sustentabilidade é palavra que não se fala por aquelas bandas.
O trânsito, especialmente nessas ocasiões, torna-se caótico - além do excesso de veículos para a capacidade das vias, observa-se o total descaso às leis. Para se ter uma idéia do ideário local, uma vez meu pai foi reclamar com um guarda de trânsito que não tomou nenhuma medida com um motorista que fizera uma manobra perigosa, bem à sua frente, criando um retorno inexistente no meio de uma rua de grande circulação. A resposta que ele obteve foi, no mínimo, interessante. "Senhor, eu não posso fazer nada! Era um turista. Se a gente multar os turistas, eles não voltam!"
Imagino que a França, país que mais recebe turistas estrangeiros no mundo, deve adotar essa mesma política, para serem tão bem sucedidos.

Nos hotéis ou clubes, cheios de piscinas, tobogãs, idosos e crianças, não há salva-vidas, brigadas de incêndio, desfibriladores, nem pessoas preparadas para prestar primeiros socorros em caso de qualquer urgência.

Recentemente, os dois foram atores de uma estória inusitada. Estavam a fazer compras num dos poucos mercados da cidade (alegria de aposentado é conversar com gerente de banco e fazer pesquisa de preços em supermercado). Brincadeirinha politicamente incorreta, deixa prá lá! Minha mãe pousa os óculos de sol numa prateleira e passa o olhar pelos produtos próximos. Alguns segundos depois, volta para pegar o óculos. Eis que não está mais lá. Pergunta para o meu pai, dá uma olhada em volta, mas não vêem nada ou ninguém. Decidem procurar a gerência, informar o ocorrido e pedir para ver a filmagem das câmaras de segurança - de repente a pessoa ainda poderia estar na loja e eles recuperariam o objeto. Ledo engano. Foram informados que as câmeras só eram ligadas à noite. Como expressaram sua chateação, o atendente achou por bem chamar a “advogada” do supermercado – até então eu desconhecia essa profissão. A moça chegou, já pronta a defender os interesses do estabelecimento – como se fossem diferentes dos do cliente, explicando que o mercado não era obrigado a manter ligadas as câmeras de segurança. Meu pai concordou, mas achou que eles deveriam, então, procurar manter a segurança dentro do supermercado. Ela achou que ele estava falando alto e se sentiu desacatada – ‘o senhor está me desacatando! Você sabe quem eu sou? (há quanto tempo não ouvia isso, achei que já estivesse fora de moda!) – Não! – Eu sou a advogada do supermercado! – Hmmm, e a senhora? Sabe quem eu sou? – O senhor é advogado? – Não, sou um cidadão que quer ter seus direitos respeitados. E quer saber? Advogada ou gari, para mim é a mesma coisa. Trato os dois com o mesmo respeito. – O senhor está me comparando a um gari? Isso é desacato de autoridade, eu vou chamar a polícia! – Pode chamar, que eu não tenho nada a temer. (Volta a fita! Quem tinha que chamar a polícia primeiro? Roda a fita, quem é autoridade, afinal?)
Chega a polícia.
- Pois não, o que está acontecendo?
- Nós estávamos fazendo compras no mercado, o óculos de minha esposa foi furtado de cima de uma prateleira e a gente quer fazer queixa.
- (A advogada) Vocês vão querer fazer queixa por causa de um óculos que deve ter custado dez reais?
- (Minha mãe ofendida) Olha, minha senhora, primeiro, que não custou dez reais, não, era um óculos muito bom! E mesmo que tivesse custado 1,99 era meu e ninguém tinha direito de pegar. (Deveria ter acrescentado: e se dez reais não faz diferença para você, eu vou entrar aqui, pegar algumas mercadorias e sair sem pagar, já que isso não tem nada de mais)
Depois de mais um capítulo de bate-boca decidem ir à delegacia. Chegando lá, vão falar com o policial/ escrivão / delegado, sei lá quem os recebeu (que, registre-se, estava desocupado):
- Pois não...
- Nós queremos dar queixa do furto de um óculos.
- Vocês vão querer fazer registro do furto de um ÓCULOS??? Meu senhor, com tanto estupro acontecendo por aí, o senhor vai querer dar queixa de um óculos??
- Vou. Vou porque o óculos era meu e ninguém tinha o direito de pegá-lo e de mais a mais o estuprador de hoje foi o cara que roubava óculos ontem e que vocês não pegaram. Porque é assim: primeiro o cara rouba um óculos, uma banana; depois uma bicicleta, um aparelho de som; e como nada acontece com ele, logo ele está estuprando, seqüestrando, matando ... (Adorei essa teoria!)
A contragosto, para não discutir, o camarada que está ali para prestar um serviço de qualidade ao público da cidade, faz a tão pedida ocorrência – que, obviamente, não levará a nada, nem a ninguém, nem evitará próximos delitos.

A pergunta que não quer calar desde então é: a partir de quantos reais ou que tipo de coisas podem ser usurpadas de outrem para começar a se considerar crime? Há um artigo no código penal que defina isso?

Nesta hora, me dá uma inveja dos Estados Unidos, que condenaram recentemente a 8 meses de prisão e, depois, a retornarem a seu país (que tinha quer ser este aqui de onde vos falo!) os chefes de certa Igreja, por entrarem no país com 56 mil dólares não declarados. Aqui, ainda, o elemento anda com dólar escondido na cueca, transita com mala cheia de milhões e consegue escapar sem nem explicar. Mas tenho esperança de viver para ver isso mudar.

sábado, setembro 01, 2007

Notícias da seca em Brasília

A seca na capital do Brasil está em sua terceira e última fase. A metereologia calcula que haverá uma ampliação da estiagem e só deverá chover na segunda quinzena de setembro. Para quem não conhece a classificação é a seguinte*:

1º etapa - maio/junho - A grama ainda está verde, de vez em quando cai uma chuvinha aqui ou acolá. Começa a temporada de churrascos e festas ao ar livre e também de gripes, infecções de vias aéreas e alergias em geral. Umidade do ar - 50%.
2º etapa - junho/julho - a grama já está bege, há redemoinhos de areia, os narizes sangram, os dias são quentes (26-28ºC) e as noites, geladas (até 12ºC!!!). Temporada de festas juninas. Umidade do ar 40 - 30%.
3º etapa - agosto/setembro - não há mais folhas nas árvores do cerrado. As vendas de umidificadores e os incêndios florestais atingem o ápice. Uma calcinha seca em duas horas (pendurada no box do banheiro). As pessoas contabilizam a terceira ou quarta gripe da temporada. É comum flagrar os motoristas limpando o salão dentro dos seus carros. O clima é assunto corrente nos elevadores, repartições e programas de rádio e televisão. Os ventos estão loucos - às vezes não há nenhum (vide foto da bandeira), em outras há rajadas de derrubar placas e pessoas (aconteceu isso esta semana!). E, muito interessante, as pessoas começam a dar choques umas nas outras. No carro, chega a sair faísca. (É irritante!). Umidade do ar 25-15%.




* Esta classificação não se respalda em nenhuma referência da literatura científica, apenas na percepção da autora. Acredite se quiser.

Em Brasília, cada vez mais seco...

A seca na capital do Brasil está em sua terceira e última fase. A metereologia calcula que haverá uma ampliação da estiagem e só deverá chover na segunda quinzena de setembro. Para quem não conhece a classificação é a seguinte*:

1º etapa - maio/junho - A grama ainda está verde, de vez em quando cai uma chuvinha aqui ou acolá. Começa a temporada de churrascos e festas ao ar livre e também de gripes, infecções de vias aéreas e alergias em geral. Umidade do ar - 50%.
2º etapa - junho/julho - a grama já está bege, há redemoinhos de areia, os narizes sangram, os dias são quentes (26-28ºC) e as noites, geladas (até 12ºC!!!). Temporada de festas juninas. Umidade do ar 40 - 30%.
3º etapa - agosto/setembro - não há mais folhas nas árvores do cerrado. As vendas de umidificadores e os incêndios florestais atingem o ápice. Uma calcinha seca em duas horas (pendurada no box do banheiro). As pessoas contabilizam a terceira ou quarta gripe da temporada. É comum flagrar os motoristas limpando o salão dentro dos seus carros. O clima é assunto corrente nos elevadores, repartições e programas de rádio e televisão. Os ventos estão loucos - às vezes não há nenhum (vide foto da bandeira), em outras há rajadas de derrubar placas e pessoas (aconteceu isso esta semana!). E, muito interessante, as pessoas começam a dar choques umas nas outras. No carro, chega a sair faísca. (É irritante!). Umidade do ar 25-15%.

* Esta classificação não se respalda em nenhuma referência da literatura científica, apenas na percepção da autora. Acredite se quiser.

domingo, agosto 26, 2007

Mais de crianças


As crianças são mesmo maravilhosas, surpreendentes, engraçadas. E nos dizem coisas inusitadas, verdadeiras, simples, constrangedoras. Aqui seguem algumas das últimas.

Cena 1:
A mãe abre o armário de perfumaria da filha de 6 anos e percebe que todos os seus vidrinhos de gloss (brilho labial) estão envoltos em papel higiênico formando rolos mal ajambrados. Conclusão materna: os vidros devem estar vazando, melentos e a filha teve essa idéia para não sujar o armário. Que gracinha! Por via das dúvidas, pergunta:
- Meu bem, por que todos os brilhos estão enrolados em papel higiênico?
- Porque eles estavam com frio!
Moral da história: As crianças têm razões que os adultos desconhecem.

Cena 2:
A mãe, só o quimba, às 7 da matina, arruma, de olhos praticamente cerrados, o filho de 4 anos, para ir à escola. Para simplificar a vida e economizar tempo, decide que não vai trocar a blusa do pijama, que passa tranquilamente por uma peça de roupa -quem sabe até não rola voltar para a cama depois! Após arrumar o rebento, alimentá-lo, enfia-se numa calça jeans, dá uma ajeitada no cabelo, mais uma lavada no rosto para acordar e parte.
Já na escola, cumprimenta a "tia" e entrega-lhe o filhote, que arremata: "Tia, sabia que a minha mãe nem tilou a blusa do pijama pala vir me tlazer?"
Moral da história: As crianças são infinitamente mais honestas que os adultos. E gostam de dar explicações.

Cena 3 - ainda do sobrinho de 4 anos:
- Vovó, eu não quero que o vovô fique velho.
- Por que não, meu filho?
- Porque quando a pessoa fica muito velha, ela morre. E eu não quero que ele morra!
Moral da história: alguns desejos nunca envelhecem, nem morrem.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Cenas do cotidiano de um casal de padrinhos brasileiros viajando

Nota preliminar: Escrevo, logo existo.
(NT: sobrevivi aos vôos)

Cena 1: Acordando para viajar
O despertador histérico toca às 5 da manhã. A esposa finge que não é com ela. O marido atende ao chamado e o desliga. Em seguida inicia o lento processo de despertar. Resolve ligar no aeroporto para saber se o vôo está no horário. A esposa esquece o pedido feito na véspera e reza de última hora para o vôo estar pelo menos uma hora atrasado. Pedido negado.

Cena 2: Tentando beber água
Após chegarem ao aeroporto de Belzonte, o casal decide parar num quiosque para tomar um café. Resolvem também comprar uma garrafa d'água para levar n viagem de carro que se iniciaria em breve. Lancham, passam na revistaria, não compram nada, pegam o carro na locadora de automóveis - após extensa burocracia, registre-se - e dão partida. A esposa lembra que esqueceu da água. Volta ao quiosque, explica a situação para a atendente, que diz que não pode dar a água. Como não? Eu paguei a água e não peguei! É verdade, ela pagou uma água, intromete-se oportunamente a caixa com memória boa. Mas você tinha que ter pego na hora, responde a atendente programada para executar procedimentos. (Então você tinha que ter me dado na hora, penso.) Tudo bem, mas acontece que deixamos para pegar depois que lanchássemos, para que não esquentasse, e acabamos esquecendo. Sinto muito, não posso fazer nada. Você acha que eu iria mentir para você e inventar essa história por causa de uma garrafa d'água, além do mais a sua colega confirmou que eu paguei. Não estou dizendo que você está mentindo. Bem, se eu não estou mentindo e eu paguei a água, eu quero levá-la! Eu não posso fazer isso porque você não tem a ficha, então eu vou ter que ligar para a gerente. Então ligue, por favor. Enquanto a outra ligava, a esposa, sob uma súbita onda de tranquilidade, tenta continuar argumentando - puxa, você não se lembra, vim aqui um pouco antes, com meu marido - um moço alto, loiro, de olhos verdes, camisa vermelha... seu rosto muda subitamente de expressão, aparece uma face de "hmmm, acho que sim..." A esposa aproveita o gancho, diz que então vai chamar o marido para que ela se recorde. Volta ao carro, "Amor, vai lá buscar a água, por favor, que a moça não quer me entregar porque não tenho o cupom e ela diz não se lembrar de mim, mas tenho certeza de que vai se lembrar de você". Dito e feito, mal o moço alto e loiro chega que a moça de memória recuperada lhe entrega pronta e facilmente a tão desejada garrafa d'água.

Cena 3 - Inspecionando o carro alugado
O casal entra no carro alugado e percebe que não há DVD-player, conforme fora combinado no momento da reserva do veículo. Volta e reclama - ué, nós havíamos solicitado um carro com DVD, vocês não têm? Temos, mas acabou.

Cena 4 - Testemunhando o casamento
O casal de padrinhos provenientes da capital federal, preocupado em fazer tudo certo, assegurou-se de chegar na véspera da cerimônia, ainda a tempo para o breve casamento civil no cartório, onde além de testemunhas, serviram de cinegrafistas e fotógrafos. Chegaram antes dos noivos, destaque-se. Entretanto, o mesmo não ocorreu na cerimônia do casamento religioso, que teria lugar em uma pequenina e singela cidade próxima a Cataguases, chamada Vista Alegre. O casório estava marcado para às 4 da tarde. 4h25 chegam à igreja. Noivos já no altar, cerimônia em andamento. O padre não tolerava atrasos. Certamente tinha muitos compromissos na grande congregação vistalegrense e não podia se dar ao luxo de aguardar convidados forasteiros que saem atrasados e se perdem no caminho. (Pausa para justificar o atraso:
1)manhã percorrendo o centro da cidade para comprar um sapato novo para a dama já que o dela foi esquecido em Brasília;
2)cabelereira resolve desmanchar todo o penteado da pequena dama - depois de pronto, porque não considera que ficara bom o suficiente
3) o salão não providencia uma manicure para trabalhar simultaneamente enquanto a cliente-madrinha preocupada escova o cabelo (e desiste de fazer um penteado, conforme anteriormente planejado). Aliás, a manicure que iria fazer a unha da madrinha tinha acabado de ser demitida e tiveram que aguardar chegar a outra, que estava fora da profissão há um tempo (tentando a vida de outra forma em Juiz de Fora) e que faria naquele momento sua reestréia (embora a cliente não soubesse de nada até então) e que levou simplesmente uma hora e vinte para terminar as 20 unhas!
4)vestido novo completamente amassado + nenhuma passadeira de plantão + necessidade de se fazer surgir uma na marra, usando-se a cama como tábua e sem passa-fácil
5)restaurante lerdo.
Enfim, pequenas coisas irrelevantes, impensáveis e imperdoáveis para um padre. Tudo bem! Que os noivos nos perdoem! Se boas intenções valerem de algo!!
Após tirar algumas fotos e fazer algumas filmagens do alto e por detrás da igreja, os padrinhos e a pequena dama são chamados para aprochegarem-se ao autar. Assim o fazem, ainda a tempo de assinar o livro de testemunhas (testemunhando o casamento visto pela metade!), cumprimentar os noivos e seus pais, pousar para fotos, desfilar na saída da igreja e jogar arroz nos noivos felizes, lindos e recém-declarados marido-e-mulher.

Cena 5 - Festa de casamento na fazenda.
Fazenda linda, vista linda, alto do morro, após 8 km de estrada de terra (o que é bastante para uma brasiliense nascida e criada no asfalto e no concreto). Paisagem bucólica, muito verde, sensaçao de paz e tranquilidade. Festa ao ar livre. Mesas belamente decoradas. Casal de padrinhos encantados, tirando muitas fotos com a família, inclusive com a irmã-cunhada grávida de 5 meses. A noite caindo, o clima esfriando. A madrinha precavida resolve trocar de roupa - levara calça, sapatos de saltos baixos, casaco de lã, tudo para não sentir frio nem cansaço. Leva a filha impaciente com o vestido chique e ansiosa para vestir suas calças jeans. As duas trocadas, já saindo do quarto, chega o pai-padrinho esbaforido. Vamos lá que vão tirar as fotos agora e estão nos chamando. A daminha imediatamente declina do convite, diz que não vai pôr o vestido de novo e que quer brincar com os primos. O paidrinho vai lá fora para ver o que faz. Volta correndo, diz que tudo bem, mas que está na nossa vez. A madrinha - the flash, tira os sapatos, meias, calça, blusa de manga comprida, casaco, põe o vestido, os brincos, passa batom, arruma a mala mais ou menos e sai correndo de volta para a festa. Encontra todos os convidados correndo para dentro da casa. O marido-padrinho explica 'começou a chover, tá todo mundo entrando, não vamos tirar fotos agora'. A madrinha desapontada resolve, então, ficar vestida para fotografia, ademais o clima já estava mais caloroso dentro de casa. O astral da galera continua supervibrante. Chove, pára, secam-se as mesas, voltam os convidados para fora, chove, entram de novo, decidem ficar. Música, dança, conversa fiada e, finalmente, para terminar com chave de ouro: doces, muitos doces, lindos e deliciosos!

Cena 6 - Voltando para casa
4 horas de estrada. Chegada aos Confins do mundo às 9 da noite. Vôo marcado para às 22:00. No painel, horário previsto para a partida: 23h45min. Cansados, com sono, com frio, na noite mais fria do ano, decidem lanchar. Felizmente acham lugar na única lanchonete com mesas internas do aeroporto. Cliente dorme em frente a um copo de cerveja. Canja, suco, sanduíche. Espera no chão carpetado do saguão. Vôo finalmente parte a 0h20min. Chegam em casa às 2 da madruga. Só o maracujá. Filha de 25kg (45 dormindo), no colo. Sensação de missão cumprida. Aliás, lembram os padrinhos displicentes, parcialmente cumprida, porque do presente os noivos esperançosos não sentiram ainda nem o cheiro!