domingo, dezembro 27, 2009

Conversando a gente pode se entender



Estava de bobeira, relaxando num riacho de águas rasas e cristalinas, que a alguns metros a frente, após seu caminho deliciosamente sinuoso, chegaria ao seu destino final, uma linda praia. Meu momento mágico de contemplação da paisagem e reflexão sobre a delícia do instante é subitamente interrompido pela voz alterada de uma avó que reclama com a netinha, de cerca de 2 anos, que acabara de bater na irmã mais velha por algum motivo bobo.

A avó, uma jovem senhora, que até poderia passar por mãe dela, gritava com a bebê, que ria em desdém da bronca. O tom da conversa me fazia pensar que ambas tinham a mesma idade. O fato é que a atitude da menininha estava deixando a avó cada vez mais irritada. Seus dedos em riste movimentavam-se mais intensamente, até que veio a previsível, barulhenta e desnecessária palmada. Seguiu-se das palavras raivosas: 'você não pode bater na sua irmã, está ouvindo?!".

Em seguida, choro e mágoa. Do lado de cá, angústia e suspiros.


Pergunto: como ensinar a não bater, batendo? Como ensinar a não-violência, violentamente?

Parece que alguma coisa não faz sentido.



quinta-feira, dezembro 24, 2009

Carta para Papai Noel



Papai Noel,

Esse ano, assim como dizia a peça que eu não assisti, foi denso, tenso, intenso. Muitas alegrias, muitas tristezas. Muita dor, muito amor. Muitas viagens, também. Para longe, e para dentro. Não fosse a ausência que lateja sofrida, o saldo seria totalmente positivo.

Ainda assim, como é de praxe, e porque quem não chora não mama, quero listar aqui meus desejos para este Natal. Se não der para entregar tudo em uma única e tumultuada noite, pode ir mandando aos poucos, ao longo do ano. Compreenderei e ainda me sentirei muito grata.

Para começar, queria que me desse lentes especiais. Daquele tipo que me permitam enxergar-me tão claramente quanto enxergo os outros, seus defeitos, seus problemas e, especialmente, as respectivas soluções.

Quero também que meus olhos e ouvidos ávidos e curiosos sejam olhos e ouvidos amorosos e atentos, capazes de compreender profundamente e solidarizar-se com a dor e a limitação alheia.

Que meus passos sejam firmes, mas flexíveis, entendam a hora de seguir e de retroceder e que minhas pernas me conduzam a caminhos de amor e sabedoria.

Que minhas mãos teçam redes e laços de afeto e amizade que eu saiba manter e manejar.

Que meus braços sejam suficientemente fortes, para erguer os pesos necessários, e macios, para acolher no colo aqueles que necessitarem de meu amparo.

Que minha conduta seja íntegra e honrada para que não necessite envergonhar-me de minhas escolhas ou desperdiçar desculpas preveníveis.

Quero também, caro Noel, se não for pedir demais, que traga daquelas pílulas de bom senso e coragem, para que eu exerça com correção minha liberdade de falar e de calar e saiba distinguir a hora certa de cada um.

Bem, meu bom velhinho, por hoje era isso. Se eu lembrar de qualquer outra coisa, mando um torpedo ou um SMS, tá?

Abraços, Juliana.


terça-feira, dezembro 22, 2009

Viajar de férias

Que delícia é viajar de férias. Praia, sol, descanso, novidades. Sorriso farto, sorvete fora de hora, relógio na gaveta, canto de pássaros. Passeio de barco, TV sem culpa, tatuagem de henna. Café da manhã de hotel, havaianas nos pés, pele bronzeada.

Viajar de férias é voltar no tempo e ser criança novamente. Mas criança com discernimento, dinheiro no bolso e poder de escolher o que fazer e aonde ir.

Às vezes, queria que essas semanas durassem o ano todo.

Só às vezes.




Retirei a imagem de: http://www.acalontech.com/relax.jpg

Gosto de finais de ano

Gosto de finais de ano. Tempo de a gente se encontrar com a gente mesmo, confraternizar com os amigos, festejar com a família. Celebrar o milagre e a alegria de estarmos vivos. Para os cristãos, celebrar também a vinda e a vida daquele que dedicou sua existência terrena para nos salvar.

Gosto desse tempo de ‘res’. Refletir sobre o que passou, sobre o que fizemos e deixamos de fazer. Repensar nossas decisões, o que deve ser mantido o que precisa ser mudado. Reorganizar os armários, descartar o que já não serve, arrumar as gavetas. Reciclar o que pode ter novos usos. Revisar os planos e verificar se estamos no caminho certo para chegar aonde pretendemos. Rever as estratégias e adequá-las ao momento, aos novos desejos e necessidades. Restaurar as emoções, as energias, para que haja disposição para recomeçar. Renovar os votos de amizade, aliança, amor, lealdade, quando for o caso. Relembrar o que nos faz feliz, o que traz sentido e significado aos nossos dias, para que possamos priorizar adequadamente. Renunciar às coisas, pessoas, idéias que nos são obstáculos em vez de trampolins, peso em vez de presença, dor em vez de frescor. Recriar novos sentidos quando isso for preciso.

Tudo isso nem sempre é trivial. Às vezes levamos uma vida inteira para terminar esse serviço. Nem sempre conseguimos.



Fonte: http://casa.abril.com.br/materias/moveis/imagem/cc569-90-ideias-organizar-armarios_08.jpg

sábado, novembro 14, 2009

Sábado de sol e de luto

Tempo, tempo, tempo mano velho
Vai, vai, vai, vai, vai
Fique comigo, seja legal!
Eu conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final
*

Tempo, tempo, tempo, mano velho,
Por que derruba tantos antes do final?...
Restavam tantas madrugadas!!!

Ainda ecoa no ouvido a frase fatídica: "Morreu!!"

Como?? O nosso amigo?? Nosso irmão?? Estávamos juntos ontem! Rimos juntos ontem! Falamos do natal, fizemos planos...

Por quê??

Mas não há respostas.
Nem consolo.
Era hora... Vá entender os desígnios do mistério...

Partiu num sábado estupendo, depois de uma semana de chuva e de frio. Céu azul, sol radiante. Não podia ser diferente. Estava sempre sorrindo, fazendo amigos, espalhando riso e alegria. Tinha uma graça autêntica. E agora tinha ido fazer festa no céu.

Nos olhávamos brancos, incrédulos. Ainda nos olhamos assim, pasmos. Esperamos ouvir seu riso a qualquer hora. Esperamos encontrá-lo na próxima sexta. Sabemos que está aqui, que agora está onde quiser, mesmo assim sentimos sua falta. Sua risada barulhenta é ouvida em nossa memória, mas agora faz doer o coração. Sofremos juntos com sua mulher amada e amiga que sente e sentirá dor ainda mais profunda, sabemos. E não podemos fazer nada... Não podemos fazer nada para ajudar nossa amiga. Como somos pequenos e impotentes diante da morte, diante da veemência crua e incontestável da nossa finitude! Como ajudar?? O máximo possível é tão pouco, tão pequeno!

Nada pode preencher o vazio. Só o tempo... Não preeche o vazio, mas ensina como conviver com ele.

De novo você, né?
Tempo, tempo, mano velho...

Falta um tanto ainda eu sei
Para você correr macio...
*

Amigo querido, onde quer que você esteja, saiba que morará para sempre em nossos corações. Uma amiga comentou "tem gente que tem a vida longa, outros têm a vida larga". Achei que tinha tudo a ver com você. Você viveu muito, aproveitou muito, curtiu muito. Somos felizes por termos tido você conosco parte de nossas vidas e termos curtido um bocado juntos...

Vai, vai, vai...
Um dia nos encontramos por aí...

Escuta essa (Gláucia Nasser, com piano de Christiano Caldas).

* Sobre o tempo, John (Pato Fu).

segunda-feira, novembro 09, 2009

Sobre bebida e elegância

Uma amiga confessava em seu blog seu gosto por cerveja e chopp e como isso é considerado 'deselegante' e indevido para mulheres, que deveriam apreciar no máximo um taça de vinho, de champagne ou um licor fino.

Uma outra amiga dia desses disse que ia pintar as unhas do pé de vermelho, mas que as pessoas consideram brega, deselegante e, portanto, optou por um esmalte transparente mesmo.

Discordei de ambas, acho que a mulher pode ser elegante bebendo chope ou com esmalte vermelho nos pés, desde que isso faça parte de sua natureza, desde que isso combine com ela, não seja uma forçação de barra, uma tentativa de chamar a atenção ou de impressionar alguém.

Fiquei pensando sobre essa questão da elegância. E acho que ela tem a ver com uma certa discrição e mistério. Porre me parece sempre deselegante, qualquer que seja sua fonte, cachaça 51, velho barreiro, champagne importanda ou whisky 18 anos. Gente que bebe para se sentir diferente do que é e fazer coisas que sóbrio não faria, para se sentir mais divertido, mais solto, é sempre deselegante. Mas alguém que degusta e aprecia cada gole, que bebe porque está calmamente apreciando, satisfazendo um gosto, um desejo pessoal, pode ser muito elegante.

Talvez por isso, em geral, o whisky tenha essa fama. Há um ritual, o barulho do gelo, o dedo que balança as pedras e depois é levado aos lábios de uma maneira tão sensual... O gesto lento, o gole profundo, o olhar no outro. Acho particularmente charmoso assistir à degustação de um copo de whisky, a pessoa saída do banho, ainda enrolada na toalha ou dentro de um roupão bem felpudo, ao som de uma música boa, como a da Nana Caymmi que escuto agora. Visualizo um homem, claro, o meu, particularmente. Mas pensando sob a perspectiva do outro genero, também uma mulher ficaria bem nessa cena.

Já a cerveja e o chope tem a ver com companhia, com festa, com barulho, com bagunça, com algazarra e alegria, e isso nem sempre se associa à elegância em sua concepção aristocrática. Embora seja válido ressaltar que nem só de elegância vive o ser humano. E cada coisa, cada boa sensação e prazer tem sua hora. Quem quer ser elegante o tempo todo? Que chatice!



Por outro lado, há as mulheres que são chiques mesmo tomando cerveja ou curtindo um choppinho estupidamente gelado. Temos uma amiga que não dispensa seu copo, taça, lata ou caneca sempre que saímos. Seu marido vai de água ou refri, enquanto ela curte muito na dela sua bebida predileta.

Nada mais elegante do que ser autêntico e natural, obedecer a seus gostos, seguir seus princípios, estabelecer suas regras e limites e segui-los conforme melhor convier a si, ao ambiente e aos outros.

Crianças sabidas

A filhotinha de 8 anos precisava fazer uma pesquisa para a escola. Em minha época recorreríamos a Delta Junior, Barsa ou Mirador, mas hoje existe o Saint Google. Como não permito que navegue na Net sozinha, fui junto com ela, digitei o tema da pesquisa e logo apareceu aquela listagem de milhares de endereços.

Já ia clicar no primeiro da lista, quando ela me adverte:
- Não, mãe, esse não!
E eu, ainda me recuperando do susto, pensando qual era o problema, pergunto curiosa:
- Por que não??
Ela suspira, como se tomasse ar e uma dose de paciencia, e me explica:
- Mãe, voce nao está vendo que ao lado de alguns endereços tem esse tracinho verde? (obviamente que eu nunca tinha reparado nisso) Isso significa que o site é seguro. Esses dois primeiros aí não tem o tracinho verde, tem um ponto de interrogação, que significa que o site não foi testado e a gente não sabe se e seguro!

Santas crianças tecnológicas, como sabem dessas coisas??

Essa é do sobrinho de 6 anos que foi com a mãe visitar um amigo que tinha 3 filhos. Após a visita, ele comenta:
- Mãe adorei conhecer esses novos amigos, especialmente o Vitor Hugo!
- É filho? Que bom, então depois a gente combina de ir lá mais vezes!
Ele emenda, como se abrisse um parenteses:
- Mãe, voce sabia que Victor Hugo foi um escritor muito famoso?
- É filho?! Responde, surpresa com a associação. Mas ele continua:
- É! Foi ele que escreveu 'Os Miseráveis' e o 'Corcunda de Notredame'.
Houve um breve silencio na sala. Mãe e avós pensavam onde esse menino aprendia essas coisas. O avo nao suporta o suspense:
- Onde foi que voce aprendeu isso? E ele, responde com muita naturalidade:
- No Mundo da Leitura, ora!

O Mundo da Leitura é um programa da TV Futura. Viva a TV educativa! Parabéns a TV Futura. A TV tem suas coisas boas, é só sabermos utilizá-la a nosso favor.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Viver é preciso, dirigir não é preciso



Aprendizado que tive na infância, que compartilhei com minha filha e que sempre procuro colocar em prática é: não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você. É tão lógico e natural para mim que tenho a expectativa que todo mundo também pense assim e vá agir assim. E qual a minha surpresa e frustração (e raiva!) quando isso não acontece.

Hoje, atrasada, indo para a aula de ginástica, no movimentado trânsito do Eixo Monumental após o meio-dia, sou surpreendida com um solavanco que arremessa meu carro alguns metros adiante. Foi tudo tão rápido que demorei um tempo para entender. Lembrei dos mandamentos do Código de Trânsito de que não podemos interromper o tráfego de veículo e que, em caso de acidentes, devemos encostar os veículos e tirá-los do fluxo. Foi isso que fiz. Dei seta, fiz sinal para o motorista que bateu na traseira de meu carro e fui encostar ao meio fio. Você encostou? Nem ele (ou ela)! Fez cara de paisagem, arrancou e se mandou. Na confusão não consegui identificar nem veículo, muito menos placa.

Fiquei lá a ver navios e com uma sensação de passar por idiota. Deveria, então, atrapalhar todos atrás de mim, sair do carro rapidamente e ir imediatamente tomar satisfações de quem considerei culpado? Talvez sim.

Na próxima vez, que espero não haja, reverei minha conduta.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Um café, com açúcar e com afeto, por favor!

É preta, gorda e linda como acho Tia Anastácia foi. Linda daquela beleza transcendental, metafísica. Se é estética, nao sei. Sei que lhe falta um dente incisivo, mas seu olhar é tão profundo e reluzente que ofusca minha visão. Quando a encontro, corro para o seu abraço, quero seu colo e assim renovo minhas energias, vejo mais sentido nas coisas, sinto como somos capazes de interferir positivamente na vida uns dos outros.

Talvez seja um ato de puro egoísmo. Mas é fato que após esse abraço, torno-me absurdamente mais feliz do que era antes.

É analfabeta, mas sua sabedoria é ancestral, visceral, milenar. Teve três filhos, sendo um casal de gêmeos. A menina ficou surda com um ano de idade após contrair meningite. Cuidou desses três anjos sozinha. Com toda a força que Deus lhe deu.

Não lhe sobra dinheiro, mas seu coração e sua alma são infinitamente ricos de amor e dignidade. Tem 47 anos, mas aparenta 65. Como seria de se esperar de uma brasileira negra, sofrida, obesa e pobre, é hipertensa, tem Chagas e varizes. Mas não sofre de preguiça nem de tristeza. Todos os dias tem um sorriso para oferecer junto à xícara de café.

Um dia lhe roubaram um guarda-chuva na parada de ônibus. Fiquei indignada com o acontecido. Não lhe basta todo o resto ainda tem que voltar para casa na chuva! E ela me disse: 'provavelmente era alguém que precisava mais do que eu...'

Meu profundo reconhecimento, minha maior admiração, todo o meu carinho, afeto e paixão por essa mulher maravilhosa, por essa criatura verdadeiramente humana, minha rainha africana, essa mãe emprestada...

quarta-feira, outubro 14, 2009

Rapidinhas 2

- Minha filha perdeu 4 dentes em uma semana.
- O aquário está cheio de musgos.
- Meu marido está gripado.
- Compramos uma geladeira.
(Que alegria! Mas chegou antes do prazo combinado. Não tínhamos onde colocá-la. Ficou na sala por uma semana)
- Estou tentando ser saudável.
(Comprei linhaça dourada, farinha de quinua real, mas só me sinto rainha após uma barra de chocolate)
- Amiga distante me presenteou com uma maravilhosa caixa de bombons.
(Amigos são para essas coisas!)

sexta-feira, outubro 09, 2009

Avós

Tive o privilégio de conhecer três das minhas quatro bisavós e poder tê-las em minha vida por um bom tempinho. Uma, era cega ao final da vida, consequência da diabetes desenfreada. Outra estava sempre elegante - os cabelos cuidadosamente pintados e bem escovados, os vestidos de tecidos finos (e caros), as unhas sempre feitas e, para complementar, belas jóias, que foram espalhadas por toda a família após sua morte. Outra tinha o hábito infalível de enviar cartões de aniversário pontuais, minuciosamente escritos e deliciosamente carinhosos a todos os membros de sua família de 7 filhas, 20 netos, muitos bisnetos e todos os respectivos cônjuges. Ao final, o dinheiro era curto, então mandávamos respostas já com selos, para contribuir com a tradição.

Hoje minhas bisavós já se foram, mas convivo com minhas duas avós, que já passaram dos 80, mas conservam a energia e a jovialidade que às vezes me falta.

Uma nasceu carioca, só teve um irmão que morreu moço. Casou-se, teve três filhos, separou-se. Sempre gostou de política e economia e de fazer festas em sua casa.
A outra nasceu na roça, numa fazenda em São Paulo, segunda filha numa prole de sete mulheres, cresceu no Rio de Janeiro, casou-se, teve seis filhos. Sempre gostou de dança e obras de arte.

Uma fazia o melhor rosbife e o melhor creme de milho que já experimentei. A outra, o melhor bolo de caixa com cobertura de laranja açucarada e um suco de caju (de garrafa) doce de doer as bochechas.

Uma teve uma carreira sólida de auditora, aposentou-se relativamente jovem, num cargo importante, por uma doença incapacitante. Outra foi dona de casa, costureira, vendedora de comésticos, fez concurso público quase aos 40 anos de idade e aposentou-se aos 70, na compulsória.

Uma separou-se após 25 anos de casamento e sofreu muito com isso. Outra enterrou o marido após 57 anos de convivência e também sofreu muito com isso.

Uma lê jornais diariamente e conversa de política, economia e relações internacionais. Outra conversa de coisas do agora e do passado, do que houve e do que talvez não tenha havido. Uma gosta de novela. Outra, da Hebe Camargo.

Uma me levou a Disney e dividiu comigo uma cabine em meu primeiro cruzeiro marítimo. Outra deixava a gente viajar no seu closet de roupas e sapatos e no seu armário de bijouterias e maquiagens.

Uma ía semanalmente à feira e nos comprava biscoitos deliciosos. Outra arrumava uma cama de edredons no chão, onde dormiam 7 netos para descanso de seus pais.

Uma me ensinou coisas do mundo, Outra, coisas de pessoas. Ambas me mostraram o valor do estudo, do trabalho, do caráter e da honra.

Uma tem angina pectoris há vários anos. Outra curou-se de dois cânceres e fez duas pontes coronarianas. Ambas são fortes e vencedoras.

Minhas duas avós são maravilhosas, moram em meu coração e são parte do que sou, do que acredito e do que vivo. A elas, meu eterno agradecimento e imenso afeto.

terça-feira, outubro 06, 2009

Educação emocional

Trabalho há algum tempo com desenvolvimento humano nas organizações e por isso estou sempre estudando uma ou outra coisa relacionada ao autoconhecimento, às interações humanas, ao desenvolvimento de competências intra e interpessoais. Participo de cursos e faço psicoterapia, o que também me mantém sempre em processo de reflexão e aprendizagem.

Mas essa não é uma rotina para todos. Vivemos numa sociedade racionalista, que valoriza o pensamento, o lógico, o cognitivo, a mente e rebaixa, rechaça ou ignora a emoção, o sentimento, o corpo. Por desconhecer, por não compreender, chegamos a temê-los. Acreditamos que se uma decisão é baseada em emoção é equivocada, duvidamos de que um problema de fundo emocional possa levar ao adoecimento físico, como se fôssemos compostos de partes independentes e desintegradas.

Agora estou lendo um livro que tenho gostado muito - Fundamentos da Educação Emocional, de Juan Casassus, publicado pela Unesco. Coloco aqui alguns pontos que considero bastante relevantes.

"É importante reconhecer o poder das emoções no que concerne a sua capacidade de nos revelar a nós mesmos e fazer com que sejamos pessoas melhores, vivendo uma vida mais plena e consciente. A educação emocional trata disso. É possível aprender experimentando, analisando e compartilhando. Mas o conhecimento das emoções não é adquirido somente pelas palavras. Aprende-se muito mais por meio das ações, vivendo num contexto de apreço verdadeiro, de tolerância, vendo bons exemplos de interrelações, vivendo essas interrelações."

Considerar isso é particularmente importante para pais. Não basta educar os filhos em relação a bons modos e etiqueta social, não basta fornecer meios de aprendizagem focada em competências cognitivas e que levem posteriormente à realização de ofícios e à inserção no mundo do trabalho. É preciso educar co-viver, para viver com o outro, para respeitar o outro e o ambiente vivo que habitamos, que é a nossa casa e que também é parte de nós.

"As emoções são a chave de nossa sobrevivência. Sempre o foram. Se estamos aqui hoje como espécie, é porque, desde o início de nossa evolução, se desenvolveu em nosso cérebro (reptiliano) a capacidade de sentir e nos adaptar ao entorno. O medo nos permitiu reagir diante do que nos ameaçava, enquanto o desejo nos permitiu alimentar e reproduzir a espécie. As emoçõe estiveram no centro de nossa capacidade de sobreviver. A capacidade emocional é a força que nos impulsiona a adaptar e transformar nossos entornos externos e internos: está no centro de nossa capacidade de evoluir. (...) As emoções representam o campo vital para cada um. O que sentimos sobre nós mesmos determina em grande medida quem somos."

Por isso somente quando começamos a perceber o que sentimos (tomar consciência), a reconhecer o que sentimos (saber nomear as emoçoes) é que podemos chegar a terceira etapa de domesticar a emoção. Esses são processos internos que caracterizam a regulação emocional. Para Casassus, as emoções não são negativas ou destrutivas, nem positivas, ele as considera como neutras. O que não é neutro é o que pensamos e fazemos quando estamos emocionados.

Como pais, precisamos desenvolver nossa competência de regulação emocional. As crianças muitas vezes exibem comportamentos que nos levam a sentir raiva. Não precisamos sentir culpa por isso. Precisamos reconhecer que não somos as nossas emoções. Preciso tomar consciência da emoção da raiva, identificar as circunstâncias em que sou tomado por ela (isso permitirá mudar o meu padrão de resposta e me libertar de comportamentos inadequados) e, assim, escolher como agir. Não é porque sinto raiva ou mágoa ou indignação é que vou agredir o meu filho. Se ele demonstrou um comportamento inadequado, mesmo que isso me desencadeie emoções fortes, como raiva, preciso ter consciência de que o importante no momento é controlar minha emoção, para poder tomar uma atitude coerente com minhas crenças e meus valores - educo pelo diálogo, educo pelo exemplo, educo com amor e com afeto. Depois posso continuar meu processo de autoconhecimento e regulação de minhas emoções com tranquilidade...

É assim também que ensino a minha filha a entender o que sente, a expressar o que sente, a pensar e refletir sobre o que sente, a escolher como agir a partir de uma ou outra emoção. É fácil? É um treino constante...

Sugestão de outros títulos sobre o tema:

- Desenvolvimento Interpessoal: Treinamento em Grupo, de Fela Moscovici, Editora José Olympio, 2008.

- A Inteligência Emocional, de Daniel Goleman - Editora Objetiva

terça-feira, setembro 29, 2009

De volta prá casa

Essa semana, um colega voltou de uma viagem de 22 dias, que começou nos Estados Unidos, passou pelo Egito, chegou à Alemanha e terminou na Itália. Foi acompanhado de filho, esposa, pais e sogros. Uma experiência fantástica! Mas, no final, tudo que o mais se desejava era chegar em casa.

Como é bom estar em casa!!

Obviamente essa não é uma verdade em todos os casos. Ha lares que são verdadeiros infernos. Lócus de violência, opressão, indignidade, tristeza. Felizmente, acho que esses não são a maioria. Geralmente nossa casa é nosso referencial de apoio e segurança, é local de aconchego, de prazer, de encontro com pessoas amadas, onde nos sentimos protegidos, queridos, tranquilos, em paz. Tanto que às vezes usamos o vocábulo 'casa' para nos referir a outros lugares onde podemos experimentar essa mesma sensação - o trabalho para uns, a pista de dança para outros, o estádio de futebol, em alguns casos, o bar por que não dizer, ou o corpo do(a) amado(a)... oh quantas declarações de amor já não foram feitas assim... em teu corpo me sinto em casa...

Casa para ser boa tem que ser ninho. E ninho é calor, é proteção, é prazer, é amor... Por isso é tão bom voltar prá casa.

Hoje estou fora, mas amanhã quero sentir o delicioso gosto do retorno... Do beijo de saudade, do abraço apertado, das declarações de amor, do sorriso aberto...

sábado, setembro 19, 2009

O que realmente importa

Dia desses estávamos no trabalho elaborando o conteúdo programático de um curso de gestão de equipes. O conceito em questão era 'valores'. Trabalharíamos os valores organizacionais, de equipe e individuais. A idéia era identificá-los e verificar até que ponto eram consonantes e as consequências para o indivíduo, para as equipes e para a organização caso houvesse grande divergência entre eles. Provavelmente infelicidade, adoecimento e baixa produtivade.

O assunto rendeu e logo estávamos filosofando sobre que valores guiavam nossas vidas e escolhas, que valores aprendemos em família ou ao longo da vida, e até que ponto nosso discurso sobre valores era coerente com a nossa prática. Realmente os valores que professamos ter são os que guiam nossas atitudes ao longo da vida ou na rotina do dia-a-dia?

No post anterior eu falava sobre as pequenas coisas do cotidiano. Agora falo sobre coisas grandes da vida. Valores estão dentre aquelas coisas essenciais. Muito nos dizem do que somos, do que acreditamos, de onde viemos. Traduzem nossa identidade social, cultural, histórica, geográfica. Sobretudo representam nossa humanidade. Animais se guiam por instintos, não por valores. Podemos nos dizer humanos porque além de pensarmos abstratamente, projetarmos o futuro, elaborarmos pensamentos e modos de comunicação complexos, apresentarmos consciência e subjetividade, nos comportamos segundo valores.

E é aí onde quero chegar. Essa coisa grande, fundamental está estritamente relacionada com aquelas pequenas coisas. Se não estiver, algo está muito errado. Pois para sermos coerentes e felizes é imprescindível que essas pequenas coisas com que gastamos nosso tempo e onde investimos nosso dinheiro e energia estejam de acordo com os nossos princípios.

Se digo que valorizo a minha saúde, preciso arranjar tempo na minha agenda para cuidar dela. Se acho que minha família é prioridade na minha vida, preciso organizar minha agenda para poder me dedicar a ela. Se acredito que estudo e trabalho são importantes, preciso encaixá-los também no meu dia. Se considero a temperança essencial é assim que preciso pensar agir. E assim sucessivamente...

E então? O que realmente importa? Que valores realmente praticamos?

quarta-feira, setembro 16, 2009

Por onde começar?



Nosso cotidiano é cheio de pequenas coisinhas que temos que administrar. Às vezes, se não cuidamos essas coisinhas dominam nossos dias, nosso tempo, nossa atenção e se transformam em nossa razão de viver.

Esse é um dos grandes perigos da vida. Nos perdermos em minúcias e deixarmos de lado o que realmente importa...

Parei para fazer uma lista de pequenas coisinhas com que eu e minha família estamos tendo que lidar esses dias....

- O papel higiênico e o condicionador estão perto do fim. Tenho que ir ao mercado
- Esqueci de pagar a frutaria. Deixar o cheque e pedir para que busquem.
- O edredom está esperando para ser levado à lavanderia. Não posso esquecer!
- Caiu o botão da minha blusa preta de cetim. Costurar ou levar à costureira?
- Minha filha está tendo dificuldades com as contas de dividir. Exercícios extras à noite.
- Arranharam meu carro. Problema sem solução. Deixar para lá.
- Debitaram um valor equivocado em meu cartão de crédito. Passar no banco.
- Trocaram o número do meu cartão e não avisei ao jornal que assino. Ligar para a Central de Assinaturas.
- Não consigo baixar meus e-mails, pois deu pau no outlook. Conseguir lugar na agenda do marido informático.
- Perdi meu celular. Passar na operadora.
- Completei duas semanas sem fazer as unhas. Abstrair e esperar até sábado.
- Meu trabalho está atrasado. Rever planejamento.
- Tenho que terminar o dever de casa do curso de espanhol. Conseguir ficar acordada à noite.

Será que é só isso? Acho que sim. Certamente não sou a única envolta em chatices do cotidiano. Meus pais tem estado enlouquecidos pois há duas semanas são acordados antes das 7 da matina por um casal de pica-paus que se diverte bicando insistentemente os espelhos retrovisores e os vidros do carro estacionado à porta de casa.

Por um lado, isso não é de todo mal. Quando nosso maior problema é um casal de pica-paus é porque nossa vida está muito boa! Ou será que o grande problema é que o único problema que conseguimos enxergar é o pica-pau barulhento do lado de fora da casa??

Quem sabe?

E como saber senão parando de olhar para os detalhes e pensando profundamente no que realmente importa...

Mas como? Por onde começar?

sexta-feira, setembro 11, 2009

Viúvas na Índia

A situação da mulher é sempre um assunto que me ocupa o pensamento. Hoje li uma postagem sobre a situação das viúvas na Índia, no Síndrome de Estocolmo, que me deixou arrepiada.

Quantos dias internacionais da mulher precisará haver para que, definitivamente, possamos festejar uma vida digna para todas?



Fonte da imagem

quinta-feira, setembro 10, 2009

Pontos de vista

Uma das coisas maravilhosas de se ter filhos ou simplesmente de se conviver com crianças é ter a oportunidade de enxergar o mundo sob sua perspectiva. E, assim, aprender muito. Gente, é impressionante como a gente vai ficando menos sábio à medida que cresce!!

Lembro quando minha filha tinha exatos dois anos e caiu de nossa cama numa noite. A bichinha chorava, chorava, então resolvemos levar para o hospital para ver se tinha alguma coisa que não enxergávamos. Não deu outra, havia fraturado a clavícula. O urgentista achou que deveríamos engessar e lá volta ela do hospital com aquela camisa de força ortopédica. Apenas um bracinho livre! Quase morri de dó!! Na manhã seguinte, lá estava eu imersa em piedade por aquele pedacinho de gente semi-imobilizado. Quando olho para ela, lá está fazendo todas as suas coisas com a maior naturalidade. O mesmo sorriso no rosto, o bracinho preso, correndo de um lado para o outro, brincando totalmente adaptada à nova realidade. Percebi que, até então, ela não tinha aprendido a se lamentar. Que podia, simplesmente, adaptar-se, adequar-se e ser feliz, sem se martirizar com as possíveis perdas ou pequenas misérias de sua vida. Como ela me ensinou!

Na última mensagem contei do falecimento da filha de meu amigo. No dia em que recebi a notícia e que todos fomos tomados por um imenso espanto, cheguei em casa e fui lhe dar a notícia. Disse a ela que eu estava muito triste porque algo muito sério havia acontecido. Ela mudou sua expressão e, com um tom de voz sóbrio e concentrado, perguntou o que tinha acontecido. Contei-lhe. Ela perguntou qual era a idade da menina. Falei que não sabia ao certo, que era algo em torno de 12 ou 13 anos. E ela serenamente me disse: que bom que ela aproveitou toda a infância, né, mamãe?

Fiquei muda, dei-lhe um sorriso de concordância e um abraço. E percebi como ainda me faltava tanto a aprender...


Fonte: yonelins.tripod.com/galeria/

quarta-feira, setembro 09, 2009

Uma pausa na vida

Dias atrás um amigo muito querido perdeu sua filha caçula de 13 anos. Era uma filha especial, em todos os sentidos. Sabíamos que era anjo e que seu tempo por essas bandas provavelmente seria breve. Embora não imaginássemos que seus dias estavam no fim 5 dias antes, quando voltava de uma consulta de rotina e sua saúde estava em ótimas condições. Quem disse que a morte necessita mandar recados?

Queria abraçar o meu amigo e dizer alguma coisa para ele. Mas dizer o quê? E para quê? Nessa hora, de repente, todas as palavras tornam-se supérfluas, quase obscenas. Não há o que dizer. Só há o que abraçar, o que sentir, o que chorar.

Houve o velório e o culto. Sua família é extremamente religiosa e espiritualizada. Não aquele tipo de religioso que participa de todas as atividades da Igreja e que passa as horas falando mal do vizinho, mas aquele tipo de religioso que verdadeiramente vivencia e pratica uma religião. Que age, pensa, sente e se relaciona com o mundo e com os outros segundo a fé, os princípios e valores que possui e que profere. Aquele tipo de gente que respeitamos, admiramos e amamos incondicionalmente do fundo do coração.

Na igreja, respirávamos emoção e transcendência. Fechava os olhos, abria os olhos, olhava para os lados e parecia que tinha sido transportada para uma outra dimensão. Onde não havia nem tempo, nem espaço. Onde ‘coisas’ não tinham nenhum valor ou significado. Onde apenas o sentimento, o mistério, a emoção, a energia, o amor, o divino, o eterno importavam. Todo o resto era tão supérfluo como todas as palavras.

Minha amiga, que no mês anterior tinha perdido duas irmãs em um acidente de carro, sentada bem ao meu lado, me dava suas mãos enquanto eu recostava minha cabeça em seu ombro. Juntas, sentíamos. Juntas, respirávamos. Juntas, chorávamos. Chorávamos, invadidas por toda a tristeza plena, bela e profunda que há na vida e na morte de uma criança pura, linda, amada, cuidada, querida e inocente. Mas acho que chorávamos também por todas as dores da vida, por todas as perdas que tivemos e pelas que ainda viremos a ter.

Saí de lá torporizada. Não consegui ir ao enterro. Queria abraçar minha filha antes que ela fosse à escola. Queria senti-la perto de mim, dizer o tanto que a amava. Queria fazer isso consciente de que cada momento deve ser vivido intensamente, que não podemos procrastinar como se tivéssemos convicção de que o segundo seguinte nos pertencesse. O futuro é simplesmente uma hipótese, como disse Lobato. Nosso planejamento de vida, nossas escolhas devem sempre levar isso em conta. Não podemos nos esquecer que a vida é agora.


Fonte: http://www.biologo.com.br/macrofotografia/fotos/images/abelha_jpg.jpg

segunda-feira, setembro 07, 2009

Divagações da Mulher Selvagem

Uma amiga me disse que essa pausa para balanço estava muito grande. Concordei com ela. Resolvi fazer um esforço, chacoalhar uma cabeça ainda meio tonta para ver se, espremendo, algo interessante saía dali. Não consegui. Então vou falando do que vier na telha mesmo.

Parte I

Estou num hotel aqui em Brasília, de frente para o lago e pro céu equivocadamente nublado nesse 7 de setembro. Ele deveria estar bem azul com um sol insuportavelmente forte. Mas o clima parece estar doido mesmo. No bar próximo à piscina toca uma música boa ao vivo e, para completar escuto som de pássaros e de gente pulando na piscina. Tudo isso dá uma sensação tão grande de bem estar!!

Anteontem estávamos nesse mesmo hotel, à beira da mesma piscina que descrevi e refletíamos sobre como era gostoso juntar um grupo de pessoas que se gostavam, seus filhos e curtir um fim-de-semana diferente, num lugar aprazível para celebrar a vida de alguém querido. Pensamos que muitas vezes não precisa muito para sentirmos alegria e contentamento. Conversávamos sobre uma quantia ideal de dinheiro que uma família deveria possuir para ser feliz. Nossa teoria era que dinheiro demais e dinheiro de menos estragam a vida e atrapalham as pessoas. Que o indicado seria ter dinheiro suficiente para usufruir das coisas boas que a civilização criou – viagens, shows, exposições, vestuário, uma casa própria bem transada, livros, revistas, cursos de idiomas, internet, creme anti-sinais, múltiplos canais de televisão, bons meios de locomoção (a lista é variável conforme o gosto de cada um...) – mas que não deveria ser tanto, a ponto de a pessoa, achando que pode tudo, perdesse seu referencial de humano, mortal, num mundo ainda desigual de gente que esbanja e gente que sofre muito.

Lembramos da Neverland de Michael Jackson. Em vez de eu me afundar num processo lento e doloroso de psicoterapia e superar os traumas de minha infância sofrida e usurpada e reconstruir uma história de vida – plena e feliz, escolho o caminho mais fácil e que minha conta no banco permite: crio um mundo de ilusão e acredito que ali sou feliz porque posso resgatar uma infância que, obviamente, não se permite ser resgatada. Por fim, morro jovem, doente, sozinho e infeliz.

Uma mencionou a Ivete Sangalo que recentemente teria comprado um ecocardiógrafo para ter em casa e diariamente, sei lá, poder acompanhar o andamento da gravidez e ‘ver’ seu filho. Pensamos até que ponto isso era saudável ou neurótico. O quanto seria uma nova possibilidade trazida pela tecnologia e que aumentaria a segurança da mãe e do bebê, ou um exagero medonho que nos afastaria ainda mais da natureza, do contato íntimo entre mãe e filho, em que os instrumentos são puramente os sentidos, a intuição e o afeto.




Parte II


É noite e estamos de volta à nossa casa. Maridão comenta que, no final das contas, não há lugar melhor. Pondero que isso depende muito da casa. Algumas são uma versão do inferno.

Continuando a conversa anterior e falando de intuição, me lembro do livro que me foi recomendado há tempos, cuja primeira leitura tentei fazer em 2006, mas não avançou e que, este ano, em meu processo intensivo de autoconhecimento, decidi resgatar: ‘Mulheres que correm com lobos – mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem’, da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estes.

Ao estudar os lobos, ela percebeu diversas semelhanças entre a loba e a mulher, especialmente no que se refere à dedicação aos filhos, ao companheiro e ao grupo. Observou também que, ao longo do desenvolvimento da civilização esses instintos mas naturais – a que ela denomina de Mulher Selvagem – foram sendo domesticados, sufocando o potencial criativo da mente feminina.

Segundo Clarissa, sem a compreensão dessa natureza da Mulher Selvagem, as mulheres perdem a segurança do apoio de sua alma. Esquecem-se do motivo pelo qual estão aqui; agarram-se às coisas quando seria melhor afastarem-se dela. Alguns sintomas desse distanciamento da Mulher Selvagem seriam ‘sensações de extraordinária aridez, fadiga, fragilidade, depressão, confusão, de estar amordaçada, calada à força, desestimulada. Sentir-se assustada, deficiente ou fraca, sem inspiração, sem ânimo, sem expressão, sem significado, envergonhada, com uma fúria crônica, instável, amarrada, sem criatividade, reprimida, transtornada.

Sentir-se impotente, insegura, hesitante, bloqueada, incapaz de realizações, entregando a própria criatividade para os outros, escolhendo parceiros, empregos ou amizades que lhe esgotam a energia, sofrendo por viver em desacordo com os próprios ciclos, superprotetora de si mesma, inerte, inconstante, vacilante, incapaz de regular a própria marcha ou de fixar limites. Não conseguir insistir no seu próprio andamento, preocupar-se em demasia com a opinião alheia, afastar-se do seu Deus ou dos seus deuses, isolar-se da sua própria revitalização, deixar-se envolver exageradamente na domesticidade, no intelectualismo, no trabalho ou na inércia, porque é esse o lugar mais seguro para quem perdeu os próprios instintos.

Recear aventurar-se ou revelar-se, temer procurar um mentor, mãe, pai, temer exibir a própria obra antes que esteja perfeita, temer iniciar uma viagem, recear gostar de alguém ou dos outros, ter medo de não conseguir parar, de se esgotar, de se exaurir, curvar-se diante da autoridade, perder a energia diante de projetos criativos, encolher-se, humilhar-se, ter angústia, entorpecimento, ansiedade.

Ter medo de revidar quando não resta outra coisa a fazer, medo de experimentar o novo, medo de enfrentar, de exprimir sua opinião, de criticar qualquer coisa, de sentir náuseas, aflição, acidez, de sentir-se partida ao meio, estrangulada, conciliadora e gentil com extrema facilidade, de ter sentimentos de vingança.
(...) Tendo a Mulher Selvagem como aliada, como líder, modelos, maestra, passamos a ver, não com dois olhos, mas com a intuição, que dispõe de muitos olhos. Quando afirmamos a intuição, somos, portanto, como a noite estrelada: fitamos o mundo com milhares de olhos.

(...) Aproximar-se da natureza instintiva não significa desestruturar-se, mudar tudo da esquerda para a direita, do preto para o branco, passar o oeste para o leste, agir como louca ou descontrolada. Não significa perder as socializações básicas ou tornar-se menos humana. Significa exatamente o oposto. A natureza selvagem possui uma vasta integridade.

(...) A mulher selvagem é a origem do feminino. (...) É o momento imediatamente anterior àquele em que somos tomadas pela inspiração. (...) É ela quem se enfurece diante da injustiça. É a criadora dos ciclos. É à procura dela que saímos de casa. É à procura dela que voltamos para casa. Ela é a raiz estrumada de tods as mulheres. Ela é tudo que nos mantém vivas quando achamos que chegamos ao fim. Ela é a geradora de acordos e idéias pequenas e incipientes. Ela é a mente que nos concebe; nós somos os seus pensamentos.

(...) Para encontrar a Mulher Selvagem, é necessário que as mulheres se voltem para suas vidas instintivas, sua sabedoria mais profunda’.




Como Clarrisa é uma contadora e estudiosa de histórias, no livro ela apresenta uma série de mitos, contos de fadas, lendas do folclores e outras histórias, por meio das quais, a mulher pode se ligar novamente aos atributos saudáveis e instintivos do arquétipo da mulher selvagem. Segundo ela, ‘as histórias são bálsamos medicinais. (...) A cura para qualquer dano ou para resgatar algum impulso psíquico perdido está nas histórias. (...) Nas histórias estão incrustadas instruções que nos orientam a respeito das complexidades da vida. As histórias nos permitem entender a necessidade de reerguer um arquétipo submerso e os meios para realizar essa tarefa.

Ressalta que muitas vezes as histórias são ‘purificadas’. Há suspeitas de que os famosos irmãos Grimm, por exemplo, tenham coberto antigos símbolos pagãos com outros cristãos, de tal modo que uma velha curandeira num conto passava a ser uma bruxa perversa; um espírito transformava-se num anjo; um véu ou coifa iniciática tornava-se um lenço; ou uma criança chamada Bela (nome costumeiro para a criança nascida durante os festejos de solstícios) era rebatizada de Schmerzenreich, Dolorosa. Os elementos sexuais eram omitidos. Animais e criaturas prestimosas eram transformados em demônios e espíritos do mal. E assim, perderam-se muitos dos contos femininos que continham instruções sobre sexo, amor, dinheiro, casamento, parto, morte e transformação. ‘Da maioria das coletâneas de contos de fadas e mitos hoje existentes foi expurgado tudo o que fosse escatológico, sexual, perverso, pré-cristão, feminino, iniciático, ou que se relacionasse às deusas; que representasse a cura para vários males psicológicos e que desse orientação para alcançar êxtases espirituais’.

Seu trabalho ao longo de anos tem sido reconstruir histórias. Busca seus esqueletos ou partes dele, como uma intensa escavação paleontológica, compara versões e utiliza elementos arqueológicos das próprias culturas ancestrais, como imagens, máscaras, cerâmicas, para tentar recriar o original. A cada capítulo traz uma história e uma interpretação dela, fazendo o vínculo com a Mulher Selvagem.

É uma leitura muito interessante para mulheres que desejam encontrar-se por inteiro, buscar suas origens, compreende o poder e a utilidade da intuição e dos instintos e que, claro, estejam no momento para isso, pois definitivamente não é uma atividade de puro entretenimento e lazer.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Pausa para balanço

Estive fora por um tempo e é capaz que ainda fique mais um pouco. O motivo? Pausa para balanço. Viagem ao centro de mim. Como é que se chame isso...

Pois é, Flavinha, percebi que precisava dar um tempo em várias coisas para me encontrar. Não sei se isso é bom ou ruim. Bem, é bom, mas não é um encontro trivial. Tantas coisas que não estava (estou?) com ânimo de ver! Mas como postergar mais o olhar e seguir andando cheia de pendências e penduricalhos mal resolvidos e achar que não vou tropeçar? Como escolher o caminho se não defini o destino? Como escrever sem estar inteira comigo? Somente ficando no campo das superficialides e não era bem esse meu propósito inicial. Queria falar do que me toca, do que me incomoda, do que desejo do fundo do meu coraçao. Como falar do que não sei? Sempre quis viver tudo de forma intensa e verdadeira. Conhecer o céu e o fundo do poço. Mas o fato é que no momento desconheço tantas coisas! Inclusive meus principais desejos. Preciso achar o que me move, lo que me da ganas de vivir... Já comecei e tem sido bom estabelecer definições importantes!
Tenho escrito muito para mim. São conversas bem reservadas, na tentativa de organizar o pensamento, separar o joio do trigo, o que é razão e o que é insanidade, invenção ou nóia. Servem para ver como evoluem (e como vão e voltam) meus sentimentos e pensamentos. Também tenho lido bastante e visto alguns filmes muito legais. (O melhor deles foi "Há tanto tempo que te amo", um filme francês que ainda está em cartaz por aqui e mostra um drama familiar e interior maravilhoso, de forma simples, leve, verdadeira e profunda, sem nenhum exagero. Vale muito a pena ver, para quem gosta do gênero). A literatura e o cinema nos permitem entrar em contato com questões nossas por meio das histórias e dilemas de outros, o que facilita nossos processos de autoconhecimento. Nos mostra também como todos temos sentimentos tão parecidos e diferentes formas de agir e de lidar com eles.
É possível que, por enquanto, vez ou outra passe por aqui. Até como exercício, mesmo quando estiver difícil...

terça-feira, junho 16, 2009

Pequenas coisas que fazem meu dia melhor

- Não ter hora para acordar
- Uma boa espreguiçada pela manhã
- Raios de sol pela janela do meu quarto
- Céu azul e sol quente
- Abraço e beijo de bom dia
- Café feito na hora com pão quente e manteiga
- Louça lavada e mesa posta
- Banho quente e toalha felpuda
- Música boa no fone de ouvido
- Cantar enquanto dirijo
- O sorriso da minha filha
- O sorriso de qualquer criança
- Mensagem de amor no celular
- Sexo de madrugada
- Sexo de manhã
- Sexo bom sem hora marcada
- Beijo na boca
- Dormir depois do almoço
- Roupa de cama recém colocada
- Água gelada antes de dormir
- Tirar os sapatos e vestir minhas pantufas
- Um bom livro deitada na cama
- Revistinha da Turma da Mônica
- Ver o resultado de um trabalho legal
- Participar da felicidade de alguém
- Leite condensado com nescau
- Leite condensado com morango
- Leite condensado com qualquer coisa
- Malhar até as bochechas suarem
- Sentir-me saudável
- Receber uma carta (ou e-mail especial)
- Escrever uma carta
- Pensar na vida
- Lembrar do mar
- Sentir-me querida
- Querer bem
- Passar creme pelo corpo
- Encontrar um amigo - ou amiga
- Ler um poema
- Sentir a brisa da manhã
- Admirar a paisagem a minha volta
- Dormir encolhidinha, envolta em cobertas, abraçada ao meu amor...

A lista não termina aqui, é muito longa. Fico feliz em saber que faço tudo isso com bastante frequência...

domingo, junho 14, 2009

Cirurgia estética - para quê?

Dia desses conversava com uma amiga que, aproveitando a oportunidade da troca necessária do silicone nos seios, resolveu fazer lipoescultura em abdome e culote e um implante de gordura em local do glúteo que considerava ter um 'desnível'. De quebra, aplicaria botox na testa, que o cirurgião faria de graça.

Já ouviram falar naquele dito 'de graça até injeção na testa'? Pois é, anda mais atual do que nunca! Eu continuo partidária do 'Injeção?... Nem de graça!' Não tomo benzetacil, vacina de gripe, nada que a relação dor-benefício não compense ou que possa ser resolvido por outra opção que não envolva furos e invasões.

A coitada estava às voltas com massagens doloridas para dissolver os calombos no abdome, diminuir a cicatriz nas axilas e em processo de auto-flagelação por ter tido todas essas estúpias idéias - ela que não era modelo, não dependia do corpo para ganhar seu sustento e já era magra e linda.

Pergunta: por que essa obsessão pelas cirurgias e procedimentos estéticos???

São caros, invasivos, dolorosos e, algumas vezes, arricados!! Até que ponto essa busca pela perfeição, pela beleza utópica, pela juventude eterna, pela satisfação ilusória vale a pena? Será que o problema está naquela gordurinha a mais, naquele amontoado de celulites - comuns à natureza feminina - ou nas escolhas que fazemos, nos valores que praticamos, na maneira que decidimos levar nossas vidas?

Queremos preencher as rugas ou os vazios interiores que nos preenchem?

Talvez passemos por tantas intervenções externas porque são mais fáceis e rápidas do que as viagens e reformas interiores.

Entretanto, o resultado a longo prazo é infinitamente inferior...

quinta-feira, junho 11, 2009

Cavalhadas em Pirenópolis

Fim-de-semana desses, fizemos uma pausa na rotina urbana, para dar um pulinho em Pirenópolis - Piri, para os íntimos - e respirar outros ares (bem mais puros), caminhar sobre paralelepípedos, apreciar culinária regional, comprar artesanias locais, desestressar, essas coisas... Também pretendia me dourar ao sol, caminhar por alguma trilha fácil (em nossa pousada havia uma!) e, à tarde, iríamos assistir às Cavalhadas, parte dos festejos do Divino Espírito Santo.

A festa, com duração de doze dias, tem seu ápice no domingo do Divino, comemorado cinquenta dias após a ressureição. É uma mescla de festejos religiosos e profanos e constituída de novenas, folias, procissão, missa, desfiles de mascarados, salvas de tiros (roqueiras), cavalhadas, pastorinhas e apresentação de grupos folclóricos.

Fazia tempos que queríamos fazer isso e finalmente deu certo. Quer dizer, deu certo a viagem, a programação não saiu exatamente como planejáramos.

A pousada que o maridão escolheu pela Internet (Cavaleiro dos Pirineus) é uma graça, muito aconchegante e integrada à natureza local. Para chegar a ela é preciso andar cerca de 2 km de terra por ladeiras tortuosas onde vacas pastam em suas beiradas. À noite, quando chegamos, parecia ainda mais assustadora! Detalhe: a estrada horrorosa é tombada pelo patrimônio histórico - que decisão estapafúrdia! Um cimento cairía muitíssimo bem por ali!

A idéia dele era ficarmos na melhor suíte - a do Imperador - para marcar bem nosso fim-de-semana especial (recuso-me a abrir mão do hífen até 2012). Infelizmente, não estava disponível, nem as de categoria imediatamente superior. Então pegamos, a "luxo" mesmo. Ok, luxo já pareceu bem legal. O ambiente era amplo e agradável, embora nada tinha de luxuoso (a começar pela cama de casal tamanho normal, que deixava os pés do maridalto de fora). Mas o pior de tudo era o futum da madeira do quarto. Não sei vinha dos móveis ou do telhado, o fato é que, ao abrir a porta, o 'odor' entranhava as narinas e tonteava o espírito. Felizmente, nosso corpo é altamente adaptável e inteligente, então com o passar do tempo, não sentíamos mais o cheiro, quer dizer, o mau cheiro! Contando após para uma amiga, ela confirmou o que o recepcionista nos havia dito - que as suítes master e imperador não tinham esse 'problema'! Deviam avisar isso no site: contra-indicada para narizes sensíveis!

A noite estava totalmente aberta, podíamos contemplar todo o horizonte de estrelas. Permitiu que a salva de fogos de artifício fosse ainda mais bela. Assistimos a artistas circenses na rua, jantamos num restaurantezinho acolhedor, compramos pratas locais e voltamos para casa, ansiosos para o dia seguinte.

Contra quaisquer expectativas e previsões, o domingo amanheceu incrivelmente nublado e chuvoso. Não sei de onde vieram aquelas nuvens e como conseguiram povoar tão densa e rapidamente todo o céu daquela maneira. Na véspera, não existia nem lembrança, algumas horas depois, dominavam todo o espaço. Vá entender.... Com isso, os planos de voltar com uma pele menos desbotada foram por água abaixo (literalmete), bem como a idéia da caminhada ecológica. A saída foi ficar no quarto fedorento até dar a hora do programa principal.

A Filhotinha estava extremamente desapontada, pois quando falamos em Cavalhadas, supôs equivocadamente que era ela quem iria cavalgar. Tentando contornar seu mau humor, chegamos ao centro da cidade(tendo sobrevivido após mais uma desventura pela estrada histórica) e pudemos admirar a magia de uma festa tipicamente popular. Cavaleiros mascarados com fantasias monstruosas, adultos e crianças com seus trajes prontos ou inventados desfilavam alegremente pelas ruas. Alguns aproveitavam para pedir dinheiro pelas janelas dos carros ou falar impropérios, protegidos pelo anonimato das máscaras, o que perturbava um pouco mas não chegava a estragar o encanto e a graça.

Nesse momento, o frio já se dissipara e as nuvens foram passear em algum rincão distante do céu. Um calor infernal começava a se instalar. Procurávamos o 'cavalhódromo'. Não sabia que era uma arena construída, com arquibancada, camarotes improvisados e duas torres simbolizando os cristãos e os mouros. Após muito pelejar, conseguimos um espaço nas arquibancadas, próximo à torre moura, representada pelos cavaleiros de capa vermelha. A filhotinha animadíssima tentava a todo custo proteger-se do calor goiano.



Para quem não é inteirado nesses assuntos, as cavalhadas são uma representação da batalha travada entre o imperador do Ocidente, Carlos Magno, e os mouros que invadiram a Península Ibérica, a fim de difundir a religião maometana entre os ibéricos cristãos. Uma grande encenação em que as vozes dos cavaleiros são (mal) narradas pelo sistema de som do 'estádio'.

No início da apresentação, eles liberam a arena para os mascarados e cavaleiros do povo, inclusive para os marmanjos que desfilam de fralda e chupetão pendurado no pescoço.



Na arquibancada, os mascarados passeiam entre os espectadores esprimidos e adoram deixar-se fotografar.



Iniciada a encenação, os cavaleiros de cada lado desfilam e, enquanto duram as negociações entre reis e embaixadores (e como duram!), os soldados aguardam enfileirados.




A bem da verdade, não aguentamos ficar até o final do espetáculo. Embora houvesse famílias inteiras ali, idosos e crianças pequenas, de colo, de fraldas, suadas, sob aquele sol de rachar, tenho que confessar que estou cada vez menos afeita a programações em que o nível de conforto das instalações estejam abaixo de 4, especialmente se o sol das 14h30 estiver tinindo sobre as cabeças da multidão...

Para se ter melhor idéia, abaixo vão algumas imagens dos arredores...

Vista dos camarotes - de dentro do 'cavalhódromo', enquanto um dos artistas se hidratava sob o olhar atento da criançada que, animada, atirava serpentinas para aflição do cavaleiro. Reparem os cartazes - propaganda de tudo, inclusive política..



Entrada do cavalhódromo. Vendia-se de tudo um pouco por ali. O churrasquinho na esquina esquerda inferior era apenas um dos itens. Havia algodão doce colorido, balão com hélio, picolé água-suja e, felizmente, água e coca-cola!



Saída do cavalhódromo. Ainda bem que ninguém caiu no desnível do solo, nem escorregou na areia vermelha molhada! Graças à proteção do Espírito Santo porque a infra-estrutura estava longe de oferecer segurança!



Piri, lá vamos nós e esperamos voltar em breve, quando a cidade estiver bem mais tranquila...

sábado, maio 23, 2009

Contra a PM Superior (???)

Quem passa diariamente pela Esplanada dos Ministérios aqui em Brasília acostuma-se a ver toda a sorte de manifestações e protestos. As passeatas, bandeiras e faixas, de tão usuais, quase confundem-se com a paisagem de Lúcio Costa e Niemeyer. Mas dia desses, eis que me surpreendo! Estacionado à frente da Praça dos Três Poderes, um ônibus. E nele, uma faixa em letras garrafais e vermelhas:

CONTRA A PM SUPERIOR

O que não faltam todos os dias nos noticiários são notícias bárbaras sobre o medíocre desempenho da PM nos diversos locais da federação, seus baixos salários e péssimas condições de trabalho e o envolvimento de policiais com corrupção e todo tipo de outros crimes.

Aqui em Brasília, a PM parece gozar de uma imagem um pouco melhor. De maneira geral, acho que temos uma sensação de confiança em nossas polícias. Pelo menos, achamos que eles vão nos proteger...

Querendo melhorar o padrão policial ainda mais, parece que a cúpula da PM decidiu exigir nível superior no concurso para a corporação. Achei uma idéia fantástica! A Polícia Civil aqui vem se desenvolvendo não é à toa. Há tempos vem investindo em profissionais bem capacitados e pagando salários razoáveis. Achei que seria inteligente a PM seguir o mesmo caminho.

Mas parece que nem todos estavam pensando assim. E fiquei extremamente curiosa em saber: quem seria A FAVOR DA PM INFERIOR??

Aliás, fiquei achando que poderiam ter substituído a faixa por essa. Seria mais autêntico e quem sabe não haveria uma chance de perceberem a insanidade que estavam falando??

Mais tarde, ouvi no rádio. O movimento pela PM inferior era de uma associação de estudantes secundaristas. Ou seja, estudantes de nível médio que supostamente desejassem participar do certame e estariam impedidos. Alegavam que a má situação das PMs não se devia à baixa formação, mas ao baixo nível dos cursos de formação que a PM oferecia e aos baixos salários.

Agora me diga: como a PM poderá oferecer cursos de alto nível a profissionais que apenas terminaram o ensino médio? Como poderá brigar por altos salários para profissionais que não possuem, ao menos, uma graduação? Como justificar isonomia com carreiras realmente de 'nível superior'???

Fiquei tão decepcionada de saber que o movimento vinha de ESTUDANTES??? Por que eles não estavam lutando pela melhoria das condições do ensino nas escolas públicas ou por mais vagas nas universidades públicas ou por melhores condições de financiamento nas instituições privadas??? Para que, assim, pudessem almejar (e isso não seria apenas um sonho, mas uma possibilidade factível) seguir uma carreira de estudos e ter chance de concorrerem em igual nível a qualquer cargo que desejarem e poderem ter uma carreira e um futuro realmente SUPERIOR???

É um exemplo de um imediatismo burro e de como nossos estudantes precisam de boa educação para que possam pensar de maneira crítica e inteligente.

segunda-feira, maio 18, 2009

Jeca ou Geca??

Nesses tempos de reforma ortográfica em que todas nossas certezas se abalam... Não, claro que não... Não houve nenhum modificação referente a uso de 'g' ou 'j'. Então, no caso em tela, 'jeca' continua sendo aquele matuto inocente e 'GECA' o apelido simpático para a nada amigável 'GastroEnteroColite Aguda'.

E não é que a tal de GECA me pegou para valer? Quem não suporta papo escatológico pare por aqui, pois é exatamente do que esse texto se trata. Pense em de repente você ter que visitar o banheiro mais de quinze vezes ao dia, às vezes duas ou três vezes em uma hora, incluindo as noturnas???

Perdi dois quilos em uma semana. E o pior: sem nenhum glamour! Não fui a nenhum SPA, não aderi a nenhuma dieta de celebridade ou de best seller, nem participei de maratona alguma.

Simplesmente parei de comer e beber tudo o que me dava prazer e de absorver todo o resto que podia ingerir. Simples assim! Mas por favor, não queiram seguir essa tática. Não é boa!, posso assegurar. Os efeitos colaterais são: impossibilidade de sair de casa, falta de vontade de fazer qualquer outra coisa diferente de estar deitada com um travesseiro quente na barriga e um cobertor dos pés ao pescoço e incapacidade de realizar qualquer esforço, como pensar em qualquer coisa por mais de cinco minutos.

Se agora estou aqui escrevendo é porque, após 5 dias de intensa atividade enteral, estou vivenciando uma trégua de algumas horas longe do toilet!! Tomara que seja para valer!!

Sonho com uma xícara de café com leite, um copo de milk shake, uma macarronada com almôndegas, e por que não confessar?... com uma porção de leite condensado com nescau...

Tarde de Domingo no Pontão

Adoro vida urbana. Adoro cidade grande. Particularmente, adoro morar em Brasília. Não fosse o excesso de veículos e a violência em ascensão certamente amaria tudo.

Mas uma cidade só vale a pena quando proporciona espaços e momentos para seus cidadãos livrarem-se de sua rotina. E contemplarem o belo, encontrarem paz, cultivarem o amor e a amizade, usufruírem de prazer, lazer e esportes.

Aqui, um dos melhores lugares para isso é o Pontão do Lago Sul. Tem verde, tranquilidade, bons restaurantes e um bela vista do Lago Paranoá. Curtir uma tarde de domingo por ali é um de nossos programas favoritos.

Soltar pipa, meditar, andar de bicicleta, tirar fotografias... Fizemos de tudo um pouco, num desses domingos de maio.







sexta-feira, maio 01, 2009

Endometriose e eu - capítulo final. Será?

Faz 10 dias que me submeti à videolaparoscopia, para retirar os focos encontrados de endometriose superficial (ovários, trompas e ligamentos) e profunda (ovário e intestino).

A cirurgia foi maravilhosa e bem sucedida. Os médicos ficaram satisfeito e surpresos por terem encontrado a situação melhor do que esperavam. Disseram que as três cirurgias anteriores foram muito bem feitas e a coisa não estava tão 'bagunçada' como eles costumam ver em casos semelhantes. Ufa, que alívio! Pelo menos uma coisa para me deixar feliz nessas histórias passadas.

A recuperação está sendo ótima, igual a de artista de TV. Se fosse cantora, muito em breve já me veriam fazendo show sobre um trio elétrico.

O mais difícil foi o jejum anterior e posterior. Ao todo foram dois dias e meio sem comer nada. Na véspera, o preparo intestinal. Me purifiquei até a alma.

Após, o descanso merecido para quem tinha sido tão mexido. Para distrair, ficava imaginando que eu estava na Etiópia e precisava me resignar. Ou que fazia uma greve de fome por alguma ideologia superior e que o mundo inteiro aguardava pela liberação de reféns sequestrados ou pelo fim da guerra no Iraque. Em outros momentos, só via televisão mesmo. Colocamos em dia, eu e maridão, todas as temporadas e filmes disponíveis na TV a cabo. Até que foi muito boa essa parte.

A vista do nosso quarto também era privilegiada. Permitía-nos essa visão da Catedral Ortodoxa de Paraíso:



Nesse início, enquanto estava imóvel, minha circulção em membros inferiores era estimulado por um aparelho cujo nome desconheço, mas que faz um trabalho equivalente ao manguito de um equipamento de aferição automática de pressão. Já ouviram a expressão: 'durma com um barulho desses'. Era exatamente isso que eu pensava. Pois parecia um barulho de viagem de ônibus, com aceleração e frenadas constantes e rítmicas. Com o tempo me acostumei e quase senti falta quando foi retirado.



No segundo dia, eles liberaram dieta líquida de água de coco, gatorade e chá. Passei o dia com meia xícara de chá e dois dedos de agua de coco. Não aguentava nem olhar para os recipientes. Sonhava com um prato de sopa como se fosse a última refeição de um condenado. Quando ele veio, senti-me no paraíso. Saboreei cada colher como se fosse manjar dos deuses.

No quarto dia, comi uma macorronada, já de alta e na casa de minha cunhada, que preparou carinhosamente cada detalhe para nos acolher nos dias posteriores à internação. Com uma semana, retirei os pontos, inclusive os que mantinham suspensos os meus ovários, e o botão. Sim, um botão. Igual ao que temos em nossas caixas de costura. Era rosa e mantinha preso e levemente suspenso o meu útero, para evitar a formação de aderências, comuns nessa fase. Após a retirada do botão, senti-me nova mulher. Já podia andar mais ereta e tudo já parecia como antes da cirurgia. Nesse mesmo dia, voamos de volta para casa e encontramos a filhotinha exilada da família. Que maravilha é o abraço de reencontro!

No dia seguinte, tomei a primeira xícara de café, acompanhada por um brownie comprado na véspera na Starbucks em São Paulo. Meu segundo manjar dos deuses.

Em 3 dias volto ao trabalho e só não quero dizer que estarei pronta para outra, pois espero que não haja. Mas se for por preparo físico, não haveria impedimento. O médico acredita que a doença não volte e que eu tenho 95% de chances de me livrar de todos os sintomas. Vamos ver...

Obrigada a todos que torceram por mim! Deu certo!

sábado, abril 11, 2009

Bichos de Estimação

Matérias e matérias são publicadas todos os dias ressaltando os benefícios da convivência de crianças com bichos de estimação. Quem poderia dizer o contrário? Eles são fofos, enchem a casa de alegria e permite que as crianças, além de desenvolverem seus afetos, aflorem seu senso ecológico, de responsabilidade e dever. Tudo muito lindo.

Mas como resolver essa questão na prática? Como incluir um animal com necessidades várias, manias, pêlos muitas vezes, na rotina de uma família de classe média, dependente de empregada doméstica para seu bem-estar físico e emocional, cujos provedores trabalham muito e fora de casa, cada membro tem uma rotina atribulada para vencer, moradora de uma cidade grande, em que o trânsito e a violência urbana é cada vez maior? Como???

A filhotinha é apaixonada por bichos. Desde sempre. Tanto faz e qualquer um. Todos. Dos insetos aos mamíferos. Nada escapa a seu amor e admiração incondicionais. A beleza não lhe importa, todos são igualmente lindos diante de seus olhos. Encanta-se com viralatas sujos e pulguentos como se fossem filhotes da Lessie.

Uma vez fomos a uma festa infantil cuja lembrancinha era um periquito numa gaiola. Quem aqui é a favor da inovação nas festas, levante o dedo e retire-se do recinto, por favor. Cadê os saquinhos de balas, chicletes, pirulitos, apitos e linguas-de-sogra insuportáveis? Eram maravilhosos!!! Por que atormentar os pais com a companhia imposta de um ser vivo?! Mas imagina se se pode negar abrigo a um pássaro engaiolado esperando para ser acolhido, nas mãos de uma criança pidona. Leva-se o periquito para casa.

Claro que os corações piedosos não agüentam vê-lo numa morada tão singela e logo ampliam seu habitat, para uma quase mansão, com pontos de lazer, um abrigo, novos recipientes para água e ração. Um espanto! A gaiola ocupava um terço do volume da área de serviço. Mas tudo pelo bem-estar geral da casa. Aos domingos, pai e filha fechavam todas as janelas, retiravam o bicho da gaiola e tentavam amestrá-lo em seus ombros. O bicho assustado voava pela casa, inclusive na direção da mãe apavorada e nada ecológica que corria gritando em direção ao primeiro cômodo onde pudesse se isolar em segurança.

Na mesma ocasião, criávamos um outro animal. Um beta. Aquele peixe que mora sozinho em pequenos aquários. O nosso vivia em um aquário de 5/6 litros, o que não era exatamente tão mini. De 15 em 15 dias, tínhamos que trocar metade da água do aquário, lavar as pedras e colocá-lo na água preparada (metade velha, metade nova com ph ideal de 7,2 e aplicação de produtos para retirar o cloro e outras frescuras). O pai era responsável pela retirada do peixe e lavagem das pedras, a mãe era do departamento de águas, a filha assistia e participava de tudo. Era ela também quem cuidava da alimentação diária e que colocava o peixe para malhar. Sim, por 30 minutos ao dia, ele deveria exercitar-se, o que era feito instalando-se um espelho à frente do aquário, para que o bichano pensasse que era outro peixe e nadasse ferozmente de um lado para o outro e fizesse poses de ataque para o inimigo ameaçador.

Quando viajávamos, tínhamos que levar os bichos para casa de amigos que cumpriam afetuosamente a mesma rotina que os animais tinham em casa. Quem já transportou um aquário sabe do que estou falando. É o momento em que se repara como são tortuosos os asfaltos de nossas ruas.

Hoje, nenhum dos dois estão mais conosco. O periquito, numa de suas saídas dominicais, na presença do padrinho e de um amigo, escapuliu por um basculhante esquecido aberto e aventurou-se por destinos desconhecidos. Até hoje ainda há choros e lágrimas por conta dessa lembrança trágica, ainda que a mãe tente convencer a pupila que o passarinho encontrou uma passarinha, tiveram lindos filhotinhos e viveram felizes para sempre em uma árvore frondosa e cheia de alimentos.

Quanto ao peixe, conta a versão oficial que, na época da reforma do apartamento, ele foi doado a um vizinho que adorava animais e cujo peixe tinha recentemente falecido. Dizem as más línguas que o peixinho, que andava doente ultimamente, teve destino diverso. Até hoje persiste essa controvérsia.

Enfim, passado quase um ano sem nenhum animal nessa casa, tendo em vista os sucessivos e intermináveis pedidos, a alergia a gatos e à impossibilidade de conciliar nossa vida a de um cachorro, decidimos criar um aquário.

Sim, criamos um aquário, os peixes são apenas uma ínfima parte, um quase detalhe, na árdua tarefa de criar aquários.

A filhotinha aceitou conformada a oferta do peixe. Cansados da ladainha de troca de água, decidimos que queríamos um aquário com filtro, para diminuir o trabalho. Ansiosas, fomos à loja especializada, doidas para escolher os peixes. Lá chegando fomos informadas que poderíamos levar o aquário. Apenas. O aquário, a areia e os enfeites. Os peixes, apenas uma semana depois, quando estivesse criada a biologia do local.

Levamos a caixa de vidro para casa, enchemos pacientemente seus 35 litros de água com uma jarra com capacidade de um litro e meio (fiz aproximadamente umas 20 viagens banheiro-quarto-banheiro), aplicamos as soluções apropriadas, fizemos as medições e ajustes de ph. Uma semana depois, voltamos para pegar os peixes. Pelas dimensões, poderíamos colocar uns 12. Oba!

Mas calma!, não agora. Vão levar o primeiro cardume (de 4 peixes) e dois peixes "limpa vidros". Depois da adaptação, em cerca de uma semana, podem voltar para pegar o segundo cardume, mais duas coridoras (que são peixes limpadores do fundo do aquário). Na terceira semana, se tudo estiver correndo bem (o que significa todos os peixes vivos), podem pegar o último e mais sensível cardume.

Bem, resumindo. Pegamos a primeira leva. Cultivamos. Quando estávamos prestes a voltar para pegar a segunda leva, algo aconteceu. Ainda não sabemos. Suspeitamos da amônia (outro teste para medição), mas a taxa não estava tão alta para causar morte. No dia da morte, houve também uma confusão e acabamos por alimentar duas vezes os peixes, será que foi isso? Não sabemos. O fato é que chegamos para dar a ração da noite e um 'limpa vidro' jazia no solo de areia. Fiquei meio agoniada, confesso. Eu é que não tiraria aquele peixe dali!

Chamamos o pai e fomos todos acompanhar a cerimônia de adeus ao peixe. A filhotinha assumiu toda a operação. Com a rede, retirou o cadáver do fundo d'água. Em procissão, seguimos todos ao banheiro principal. Decidimos que seria jogado no vaso, para a rede de esgoto. A filha derruba o falecido lá dentro e fecha a tampa. Pergunta o que fazer. O pai explica que terá que dá a descarga. Ela apoia a mão no botão, fecha os olhos e chora. Os pais se entreolham com o coração partido e sentindo todo o drama do momento. Duvidamos que ela conseguirá prosseguir com a operação. O pai pergunta se quer que execute a descarga. Ela respira fundo e diz que não. Abre os olhos, olha em direção à válvula, respira fundo novamente e pressiona o botão final. Em seguida nos abraçamos todos para acolher suas lágrimas e sua dor.

No dia seguinte, saímos para o trabalho. Quando voltamos para o almoço, ela já tinha saído para a aula e deixado o seguinte bilhete, escrito num pedaço de papel:

"Pai, o outro "limpa vidro" morreu. Não tirei ele do aquário pra você vê (sic) e tirar ele.
Beijos, Júlia.
BUÁÁ"


Criar bichos de estimação também nos dá oportunidade de ensinar as crianças a lidar com as dores e as perdas. Se é que é possível se ensinar ou se aprender isso.

sexta-feira, abril 10, 2009

Advertência aos anônimos

Estou tendo um problema com os anônimos que visitam o meu blog. Eles não gostam das coisas que escrevo. Então pergunto: por que lêem??

Vou dar um conselho, ou melhor, vou dar uma sábia recomendação aqui. Como isso é raro, é melhor que prestem muita atenção: se você não sabe o que vai encontrar, não leia!!

Descobri que é para isso que existem as orelhas dos livros e as críticas literárias. Para as pessoas não se frustrarem. Em blogs não há isso, por isso é considerado quase um esporte radical. Seria uma espécie de leitura radical, arriscada e perigosa. E o pior, as pessoas não assumem, talvez nem percebam, o risco de praticá-lo. Esquecem que na internet há todo o tipo de loucuras, todo o tipo de gente. Arriscam-se procurando, lêem qualquer coisa e depois revoltam-se contra o autor.

A minha última visitante escreveu o seguinte sobre a fatídica história da mamotomia:

Olá... Boa tarde!!!
Quando fui requisitada para fazer o exame mamotomia, fiquei curiosa e até com medo, por não sabia o procedimento.
Depois da busca pelo Google achei o seu relato "pessoal" e posso dizer que fikei indiganada pois, ao inves de vc ajudar pessoas que procuram uma busca para um tipo de resultado suspeito como o meu caso, fikei ainda mais com medo de fazer o exame, me senti APAVORADA pelos seus relatos, mas posso dizer que pra tirar uma duvida eu preferiria fazer esse exame do que passar mais tarde por uma cirurgia, por causa de uma suspeita que fikei com medo de fazer a mamotomia pelos seus relatos.
infelizmente o seu comentário não está ajudando, pois pessoas que tem leves suspeitas ou até mesmo o cancer não irão fazer o exame pela enorme dor que vc relatou.
Seu cometário foi inconveniente
Muito obrigada


Achei tão interessante a crítica porque o título de minha mensagem era: relato pessoal. Em algum lugar iludi as pessoas anunciando: "ajudo pessoas que vão fazer mamotomia"??

Engraçado também é que não recebi nenhuma solidariedade pelo meu sofrimento. A revolta é toda destinada a mim, ao meu texto. Não à dureza da vida, ao fato de sermos mulheres, de termos mamas, à medicina, ao raio do aparelho ou aos métodos ancestrais!

O que me admira é como as pessoas, sobretudo as mulheres, sendo tão apavoradas e suscetíveis como se declaram aqui conseguem submeter-se a procedimentos tão dolorosos e muitas vezes desnecessários e mortais como as lipoaspirações e cirurgias estéticas. Se se pautassem por exemplos e histórias, ninguém mais faria uma lipo, porque o que não falta é notícia de gente morta depois disso. Então lipo não causa medo, mas biópsia para verificar se há câncer gera um PAVOR????? Ah, me poupem.

Agora sofro e não tenho direito de dizer, pois as pessoas se incomodam. Ora bolas!!

Aliás, repararam como hoje é proibido sofrer? Nas revistas, todo mundo quer aparecer feliz. Jovem e feliz. Se você não é jovem, nem feliz, não está na moda. Deveria pensar em mudar-se para Marte. Sentir dor é um pecado mortal. Contar então, imperdoável e irremediável. Faz as pessoas lembrarem que são gente e que a vida é dura.

Ontem estava no salão, lutando contra a natureza como diria meu avô, e vi na Caras o Liam Neeson, super-feliz, num estádio de futebol, com os dois filhos, 12 dias após a morte da esposa. Vi também a Suzana Vieira, na capa de outra edição e declarando-se super-feliz com o novo namorado, três meses após ter perdido o ex-marido e vivido uma história comparável a dramalhão mexicano. Ah, mas isso sim é um relato muito conveniente! Santa conveniência!

Bem, mas voltando ao assunto, para evitar esse tipo de coisas, inspirada nas campanhas do Ministério de Saúde adverte e nas críticas literárias, resolvi acrescentar um aviso no início da mensagem:

Caro visitante que chegou aqui por meio do amigo google,

Advertências:

1) Este não é um blog de ajuda.
2) Nesta postagem você não encontrará informações técnicas sobre o exame, nem talvez os detalhes que você queira saber.
3) Este é apenas o relato de minha história. Seu propósito não é esclarecer ninguém que pretende fazer o exame, é apenas o de compartilhar uma experiência.
4) Quem desejar informações sobre a mamotomia deve perguntar para seu médico assistente, para a clínica em que fará o exame ou procurar em sites especializados.

Atenciosamente,
Juliana.

p.s: Se continuar a leitura e se aborrecer, não adianta reclamar ao autor. Assuma o risco.

Será que assim conseguirei resolver o problema?

Criança autoeducável

Às vezes ouço algumas pessoas espantadas com as nossas crianças, como se fossem precoces ou mais inteligentes que as de gerações passadas. Discordo totalmente disso. Não vejo um progresso da inteligência, embora haja, sim, uma diversidade em sua expressão e nos estímulos atuais.

Hoje as crianças tem habilidades digitais impensáveis há alguns anos. Por outro lado, quero ver uma criança de hoje fazer malabarismo com pipas ou carrinhos de rolimãs como nossos colegas faziam.

É certo que muita coisa mudou. As relações entre pais e filhos, as formas de se comunicarem e o comportamento de uns e de outros também estão diferentes.

Noite dessas estávamos em casa eu e minha filha de 8 anos. Marido estudante estava na aula. Era quase hora de ela deitar-se e não me lembro exatamente o que aconteceu que acabamos discutindo. Ela saiu da sala e eu fiquei lendo um livro. Daí a pouco meu celular apita e recebo a seguinte mensagem:

“Mãe fui grossa até demais com você, e por isso eu mesma me ponho de castigo. (Dormindo sozinha). Mas se quiser empedir (sic) isso, é só ir lá deitar comigo! Deeeeesculpa mesmo. Boa noite.”

Percebi que realmente algo mudou nas crianças de hoje. Antigamente elas fugiam ágeis e intrépidas das surras, corriam pela casa, pulavam muro de vizinho, só apareciam quando a raiva dos pais já havia passado. Castigo? Nem pensar. Contraproducente para os pais, inimaginável para as crianças.

Hoje, finalmente, as surras foram configuradas como violência doméstica e consideradas brutais e ineficazes. O diálogo e o castigo ‘para pensar’ apareceu como uma forma de levar a criança à reflexão sobre o comportamento inadequado.

Com tudo isso, acaba que hoje a consciência infantil é maior que a de muito adulto por aí. Hoje nós, pais, não precisamos nos preocupar muito. Nossa participação é meramente coadjavante. Hoje, as próprias crianças se estipulam limites. São capazes, inclusive, de estipular a penalidade de acordo com o crime cometido. A minha foi grossa ‘até demais’ e, por isso, iria dormir sozinha. Abriria mão da minha presença a seu lado, na cama (sempre gosta que eu vá acompanhá-la até cair no sono). Quem dera que nossos criminosos tivessem tamanho senso crítico!!

Também percebo que têm mais consciência do perdão. Bem verdade também que tiveram oportunidade para aprender e praticar. Hoje os pais perdoam bem mais que no passado. As crianças que fugiam da surra correndo em volta da mesa e pulando o muro do vizinho também insistiam no pedido de perdão, entre lágrimas e risos, mas não me lembro de concessões. Os pais de antigamente eram bem mais impiedosos.

As crianças de hoje não somente acreditam no perdão paternal, como se aproveitam do sentimento que ele evoca para convencer-nos de como livrá-los do martírio. Convenientemente auto-imputado, diga-se de passagem.

Talvez as crianças de hoje não sejam mais inteligentes. Talvez, porém, estejam mais espertas. Ou será que nós, pais, estamos mais bobos?

A endometriose e eu

AVISO:

Caro visitante que chegou aqui por meio do amigo google,

Advertências:

1) Este não é um blog de ajuda.
2) Nesta postagem você não encontrará informações técnicas sobre a patologia, nem talvez os detalhes que você queira saber.
3) Este é apenas o relato de minha história. Seu propósito não é esclarecer ninguém, é apenas o de compartilhar uma experiência.
4) Quem desejar informações sobre endometriose deve perguntar para seu médico assistente ou procurar em sites, livros ou periódicos especializados.

Atenciosamente,
Juliana.

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Essa é uma longa história... Simplesmente a minha história...

Parte 1 – As cólicas

Não tenho recordações de menstruação sem cólica. Na adolescência, minha mãe não compreendia. Pelo menos por dois dias tinha que passar as tardes deitada de bruços ou em posição fetal. De manhã, buscopan para ir à aula. Na vida adulta, isso continuou. Era tudo muito ‘normal’ para mim.

Até que um dia, essa cólica passou dos limites. Estava exatamente subindo as escadas de um centro comercial aqui em Brasília, quando veio uma dor tão forte que pensei não me seguraria de pé. Busquei um apoio, fiz uns telefonemas desmarcando os próximos compromissos e me dirigi ao serviço de emergência onde trabalhava. Recebi diagnóstico de cólica menstrual, medicamentos analgésicos intravenosos e em hora e meia estava bem novamente.

No mês seguinte, o mesmo se repete. Desta vez estava no térreo de outro centro comercial. Era a primeira vez que ia a Nova York realizar um sonho. O de andar livre, só, leve e solta na cidade mais cosmopolita e fascinante do mundo. Tinha acabado de descer do ônibus panorâmico de turismo e estava no lobby do World Trade Center, prestes a subir e admirar aquela vista única na Terra, quando veio a dor. Estaciono numa pilastra, respiro fundo e vou telefonar para o namorado distante uma América de mim. Pálida e assustada, resolvo voltar para o hotel. Se soubesse o destino que aguardava aquelas torres e que jamais voltaria a estar ali novamente, teria fingido que aquilo tudo não era comigo e iria aproveitar minhas dores no topo do mundo.

Terceiro mês. Voltam-me as cólicas insuportáveis. Volto à emergência. Recebo meu diagnóstico de cólica menstrual, os mesmos analgésicos e já estou quase boa, quando um colega médico vai me visitar e tem a genial idéia de sugerir que eu faça uma ecografia. Lá estão os endometriomas nos meus ovários. Um deles era bem grandinho. Poucos dias depois estava fazendo a cirurgia para a remoção.

Parte 2 – O tratamento

Era setembro de 1998, eu tinha 26 anos e confesso que me achava jovem demais para ter uma doença e ir parar no hospital para ganhar minhas primeiras cicatrizes cirúrgicas. Mal sabia que haveria outras...

Uma amiga enfermeira me acompanhou durante todo o procedimento, o que foi bastante tranqüilizante. Nada mais solitário do que a sala de cirurgia. Foi uma laparoscopia e vários focos de endometriose foram encontrados – ovários, trompas, abdômen – e removidos. A recuperação foi ótima. Em uma semana estava de volta ao trabalho.

Mas o tratamento não estava finalizado, faltava a tal terapia hormonal que duraria 6 meses. Com injeções mensais de um medicamento carésimo, estava simulado um estado de menopausa. Livre das menstruações e do efeito do estrógeno, estaria também a salvo da endometriose.

Fui advertida dos sintomas que poderia experimentar, como ondas de calor e alterações na libido. É claro que a gente nunca acredita totalmente nisso, sempre acha que sairá impune, que fará parte da estatística ínfima de gente que não sente absolutamente nada. Felizmente, os sintomas foram só esses, mas a dimensão deles eu só entenderia na prática.

Sempre ouvia falar das tais ondas de calor e as piadas sobre elas. Mas juro que não imaginava o que significavam realmente. O corpo aquecia de repente e por inteiro como se baixasse em mim um espírito do fogo. O rosto ficava ruborizado, as bochechas ardiam. Isso podia acontecer em qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar. A vontade era de tirar a roupa e mergulhar na primeira bacia de água fria. De madrugada, chutava as cobertas de repente e não suportava nenhuma presença próxima.

Achei que viveria casta e abstêmia o resto de meus dias. Pensei em repensar minha vocação. Mas tudo passou, como mágica, com o efeito da medicação. E nem cheguei a me aproximar do convento.

Parte 3 – Os anos seguintes

Depois disso, passei a acreditar que era estéril. Isso não me preocupava, pois não pensava em ter filhos. Havia, pois, até certa conveniência nessa condição. Eu e meu namorado aproveitávamos para curtir nossos momentos de solteirice, viajávamos muito, passávamos bastante. Meses depois, ele virou meu marido. Muita coisa aconteceu em breve período. Arrumamos nossa casa, brigamos e fizemos as pazes muitas vezes, curtimos novas viagens e um tempo depois, voltando de carro das praias nordestinas, me descubro grávida.

Primeiramente, achei que o enjôo ululante era decorrente de um camarão na moranga que tinha comido em Olinda. Em Praia do Forte só engoli biscoito cream cracker sem manteiga e água gelada. Como não há indigestão que dure tanto, chegando em casa, já começamos a pensar em novas causas e em março de 2000 já estava oficialmente grávida.

Resumindo, tudo correu bem – gravidez, parto (cesáreo) e puerpério. Em detalhes, colhendo minúcias, a coisa toda era mais ‘hard’ do que eu pensava e decidi no primeiro mês que não teria mais filhos. E assim foi nos primeiros quatro anos e pouco.

Depois, achei que talvez fosse legal outro bebê. A essa época a filhotinha já começava a pedir um irmãozinho também. Então resolvemos deixar a coisa correr solta. Nem tentar, nem evitar. Seria o que Deus quisesse.

Em dezembro de 2005 engravidei novamente.

Parte 4 – As perdas


Era final de ano e estávamos felizes de comemorar as festas com o (a) mais novo (a) membro da família. Estávamos em Viçosa, terrinha do marido, quando comecei a sangrar. Estava tudo muito recente, era a 6ª semana de gravidez e sabia que se continuasse daquele jeito não daria para segurar. Na ecografia, não visualizamos o corpo lúteo. Nos dias seguintes, completou-se naturalmente o aborto. Fiquei aliviada de não precisar cauterização, nem nada.

Fiquei chateada com ocorrido, mas não quis dramatizar. Abortos naturais ocorrem com relativa freqüência. Por que não aconteceria comigo também?

Voltei para casa novamente sozinha em meu corpo e não me dediquei a pensar muito no assunto.

Setembro de 2006. Voltava do trabalho com uma amiga na carona. Um engarrafamento impedia o nosso retorno tranqüilo para casa. De repente uma dor que começara leve acentua-se a tal ponto que não posso mais dirigir. Essa amiga era o anjinho da guarda que dirigiria meu carro até o hospital. Ao chegar, tive que sentar no meio-fio e esperar a cadeira de rodas. A dor era lancinante, parecia que minha coxa ia separar-se do corpo e cair. Nessa hora, percebi como não há pudores na dor. Abri os botões da minha calça e não me importava com nada ou ninguém. Só queria ficar livre daquilo.

Conseguimos entrar no hospital e me colocaram numa cadeira. Minha amiga tentava desesperadamente que algum médico de bom coração viesse me ver. O hospital era particular, mas isso não é nenhuma garantia de que você receberá atendimento rápido nem de qualidade. A médica chegou, fez algumas perguntas que eu mal conseguia responder, auscultou meu coração, presumiu que era cólica renal e me encaminhou para uma ecografia renal. E eu só queria um remédio que aliviasse a minha dor.

Resumindo, para não ficar extenso nem dramático. Quatro horas depois, a dor já tinha sido controlada e eu recebera o diagnóstico de cisto hemorrágico (formado pelos óvulos ao se romperem, num processo fisiológico do organismo). Recebi alta, fui orientada a me observar e retornar ao hospital caso ocorresse qualquer coisa diferente. No dia seguinte, procurei minha ginecologista, que resolveu fazer um Beta-HcG, uma vez que gravidez tubária era uma das hipóteses diagnósticas cogitadas pelo ecografista (a imagem estava confusa). O período do ciclo menstrual não era exatamente sugestivo de ocorrência de gravidez, mas o nosso corpo não é matemático e o imbróglio era mesmo uma gravidez tubária, que havia rompido, sangrado e se reorganizado (esse é o nome que eles dão quando o próprio corpo dá um jeito e estanca a hemorragia). Por isso também a interrupção da dor.

Pouco depois lá estava eu fazendo nova laparoscopia. Desta vez saí sem a minha trompa esquerda, irrecuperável após o acontecido. A reorganização não era um sucesso total, afinal de contas. A cirurgia foi ótima e a minha recuperação também.

Dezembro de 2006. Três meses após, me descubro grávida novamente. Desta vez, tenho medo de comemorar e de me alegrar. Resolvo que só faria isso após a ecografia que realizaria na sétima semana, quando voltasse da viagem para Fortaleza com a filhotinha e uma amiga. Minha amiga estava com seu bebezinho de sete meses e a minha filha estava curtindo à beça aquela relação. Não queria pensar no assunto. Minhas duas experiências prévias me enchiam de incertezas e motivos para precauções. Entretanto, não pensar é pensar. Portanto, é claro que, se na superfície, me convencia que não pensava, no íntimo eram mil as esperanças e desejos.

Voltaríamos para casa na sexta-feira e no dia seguinte viajaria para Caldas Novas, para o aniversário de um ano de uma sobrinha. Passaríamos o restante do fim-de-semana lá e faria a ecografia na volta. Acontece que comecei a sentir-me estranha e pedi a meu marido que marcasse a ecografia para sábado de manhã, pois só viajaria com a certeza de que tudo estava bem.

Apesar de todas as precauções, qual não foi a minha surpresa quando o médico começou a revolver o aparelho por todo o útero e nada aparecia. Senti um frio no estômago e uma lágrima rolar discretamente do olho direito. Mais um pouco e lá apareceu... Coraçãozinho batendo e tudo! Alojado não no útero, mas em meu ovário esquerdo.

Com a ecografia na mão e o resultado do Beta-HcG que me mostrava gravidíssima, liguei para o meu cirurgião e contei a história, queria resolver logo o assunto. Mas ele queria esperar até segunda-feira, para que eu fizesse outra eco. Obviamente, ele estava ocupado e queria ganhar tempo. Eu não faria outra eco para ver a mesma coisa. Mas não tive outra opção se não esperar. Desisti da viagem, mandei a filhotinha por minha irmã, fui curtir uma fossa no colchão da minha cama e à noite resolvemos ir ao cinema, para espairecer. Escolhi o filme “Diamantes de Sangue”. Foi bom que diante do sofrimento da África, minha tristeza tornou-se ínfima, quase nula. Estava me sentindo satisfeita de ter podido assistir a toda aquela tragédia.

No final do filme, comecei a sentir a dor. Sabia que meu ovário tinha rompido e que estava fazendo uma hemorragia interna.

Quando chegamos ao hospital, minha barriga estava inchadíssima e eu não suportava que encostassem em meu abdômen. O médico residente que me atendeu queria fazer um toque vaginal. Estava louco? Eu já tinha o diagnóstico, só queria que chamassem o meu cirurgião. Era 21h30 e eu tinha jantado antes do filme. Ainda tive que fazer nova ecografia, Deus sabe às custas de quanto esforço. Estava desmaia-não-desmaia. Meu marido que me segurava e acudia, pois no hospital a assistência era também ínfima, quase nula. Tinha cólicas fortíssimas e diarréia. A cirurgia aconteceu às 3 da manhã.

Nelson Rodrigues achava que a hemorragia interna era a pior forma solidão. Continuo achando que é a espera na sala de cirurgia.

A operação correu bem. Perdi mais uma parte do meu ovário esquerdo.

Parte 5 – As indefinições

Queria saber porque cargas d’água tinha tido duas gravidezes ectópicas num período de quatro meses. Qual ou quais seriam as causas. Voltei à consulta com o cirurgião, um dos mais conhecidos e respeitados especialistas em reprodução humana daqui de Brasília, decidida a obter essa resposta. E o que ele me disse? Segura e enfaticamente: azar. Isso, somente isso. Ponto final.

E eu, que não jogo na mega sena, porque não acredito em sorte, haveria de acreditar em azar?

Em 2007 ainda voltei à minha médica, por conta de algumas dores indefinidas, umas pontadas esquisitas e cismada que tinha endometriose. Ela me pediu que fizesse uma ecografia transvaginal. Não deu nada. Fiz histerossalpingografia para saber se minha trompa direita, a sobrevivente, estava ok e o laudo foi que sim, estava ok. Apesar disso, ela acreditava que deveria haver algo de errado com essa trompa e que se eu quisesse tentar outra gravidez deveria procurar uma clínica especializada.

Só fui fazer isso um ano depois, no final de 2008. Pediram alguns exames e iniciaram um tratamento de indução e acompanhamento da ovulação, por ecografias regulares. De repente, me bateu um medão. E se não foi azar e realmente eu tenho alguma coisa que não foi descoberta e, de repente, engravido de novo e tenho outra experiência ruim?..

Resolvi não voltar mais à clínica.

Nesse meio tempo encontro uma amiga, um outro anjinho, que me conta uma experiência parecida, uma história de infertilidade, aborto e endometriose no passado. Estava se tratando em São Paulo e acabara de descobrir e se operar em decorrência de endometriose profunda, que lhe causara a perda de uma trompa e 11% do intestino.

Parte 6 – Endometriose profunda

Fui a São Paulo em busca de ajuda realmente especializada. Minha primeira consulta durou duas horas. Depois fiz uma ecografia transvaginal, com preparo intestinal prévio. Em vez de azar descobri, em dois dias, que tinha endometriose profunda na região retrocervical, em ligamento útero-sacro e retossigmoide, além de endometriose superficial no ovário esquerdo (aposto que também encontraremos na trompa restante) e que, provavelmente, essa era a causa do meu aborto e das duas gravidezes ectópicas. Também era a causa de uma série de outros sintomas que eu vinha ignorando e nem conectava a isso.

Voltei surpresa, chateada, mas embriagada de felicidade. Daquele tipo de felicidade que só o alívio e a certeza nos proporcionam, mesmo que no contexto das coisas ruins.

Em 10 dias farei minha quarta laparoscopia. Espero que seja a última.